Um modelo de inteligência artificial lançado em 07/04/2026 reacendeu debate sobre a vulnerabilidade dos sistemas que sustentam arsenais nucleares. Em texto publicado no The Conversation, o pesquisador Thomas Fraise, da Universidade de Copenhague, argumenta que avanços em IA, como o Claude Mythos, evidenciam novas ameaças à lógica da dissuasão nuclear.

O que é o Claude Mythos

Desenvolvido pela Anthropic, o Claude Mythos foi apresentado em 7 de abril de 2026 e não teve lançamento comercial. A empresa informou que o modelo foi disponibilizado a um grupo restrito de cerca de uma dúzia de grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, incluindo Google, Microsoft, Apple, Nvidia e Amazon Web Services (AWS).

Segundo a Anthropic, o Mythos alcançou desempenho sem precedentes na identificação de vulnerabilidades em sistemas computacionais, detectando falhas “zero-day” em navegadores, softwares e sistemas operacionais. A empresa informou que o modelo teria desenvolvido métodos para explorar essas vulnerabilidades em tempo recorde — provavelmente em menos de um dia — com taxa de sucesso de 72,4%.

Elementos públicos confirmam parte das afirmações: Sylvestre Ledru, diretor de engenharia do Firefox na Mozilla, disse que o Mythos ajudou a encontrar um número “absolutamente impressionante” de falhas no navegador. Entre os exemplos citados está a descoberta de uma vulnerabilidade existente há quase 27 anos no sistema OpenBSD, muito usado por serviços de cibersegurança.

IA e aumento das capacidades ofensivas

Fraise aponta que o Mythos ilustra um fenômeno mais amplo: modelos de linguagem avançados podem acelerar o crescimento de capacidades ofensivas no ciberespaço, tanto por Estados quanto por atores privados e cibercriminosos. Mesmo que o desempenho do Mythos seja menor do que o anunciado, o rápido avanço dessas ferramentas desde o início da década de 2020 sugere maior difusão de meios para descobrir e explorar vulnerabilidades.

O resultado esperado, segundo o autor, seria um aumento da probabilidade e do número absoluto de ataques cibernéticos bem-sucedidos, ao mesmo tempo em que cresce a incerteza sobre a capacidade defensiva de corrigir essas falhas a tempo.

Vulnerabilidade dos arsenais nucleares

Fraise ressalta que um arsenal nuclear depende de uma complexa infraestrutura tecnológica: ogivas, mísseis, sistemas de comunicação para transmitir ordens e mecanismos de alerta antecipado. O pesquisador Herbert Lin, de Stanford, afirmou que a metáfora do “botão nuclear” simplifica a realidade, pois após o aperto é preciso acionar diversos “ciberbotões” para gerir operações nucleares.

Imagem: Divulgação

Cada elo dessa cadeia poderia ser alvo de interferência cibernética. Fraise descreve cenários em que informações não chegam ao presidente, ordens de lançamento não são transmitidas a forças submarinas ou uma ordem falsa é enviada a operadores. Nem todas as falhas teriam efeitos extremos: atrasos ou transmissão parcial de ordens poderiam produzir retaliações mais fracas do que o planejado. Em 2010, por exemplo, um centro de comando estadunidense perdeu comunicação com cerca de 50 mísseis por quase uma hora.

Também é apontada a possibilidade de um grande ataque não estatal criar a impressão de que um adversário mira um arsenal nuclear, elevando o risco de escalada involuntária. Ataques a sistemas convencionais integrados a comandos nucleares também poderiam ser interpretados como ameaça ao arsenal.

James Gosler, ex-responsável por segurança de sistemas nucleares no Sandia National Laboratories, afirmou que a complexidade exponencial dos componentes das armas a partir dos anos 1980 tornou impossível garantir que microcontroladores usados em mecanismos de detonação estejam totalmente livres de vulnerabilidades.

A aposta sobre o futuro

Fraise conclui que a chegada de modelos avançados de IA capazes de detectar vulnerabilidades e projetar ataques automatizados adiciona uma nova dimensão à “aposta nuclear”: os Estados que mantêm arsenais jogam na expectativa de que não existam vulnerabilidades críticas, ou de que avanços defensivos acompanharão, em tempo hábil, os avanços ofensivos. Caso contrário, a segurança baseada em armas nucleares dependeria da sorte — ou da esperança de que falhas não sejam descobertas —, observa o autor.

Com informações de Olhardigital