A Raízen afirmou, em fato relevante divulgado no dia 4, que pode recorrer a uma recuperação extrajudicial caso seja necessário, revelando o estágio crítico da companhia diante de alta alavancagem, perdas operacionais e falta de acordo entre os sócios. Em transmissão pela Band, a empresa informou que busca uma solução abrangente para reforçar sua estrutura de capital.

O grupo, criado em 2011 a partir de uma joint venture entre Shell e Cosan, consolidou-se como a maior produtora mundial de etanol de cana e um dos principais players do setor sucroalcooleiro brasileiro. Desde 2016, a Raízen passou a financiar projetos de longo prazo com base em endividamento, estratégia que se mostrou sensível ao aumento da taxa de juros e a choques operacionais.

Um dos vetores da crise foi a aposta em etanol de segunda geração (E2G). A companhia investiu na tecnologia com a expectativa de obter prêmio por características ambientais, mas o retorno econômico não se materializou na velocidade prevista. Segundo José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX, a narrativa ESG não se traduziu em disposição do mercado para pagar valores superiores, e a maturidade do mercado de carbono ainda é limitada. Enquanto isso, o etanol de milho avançou com custo competitivo e execução mais simples.

Além disso, a empresa ampliou atividades além do negócio principal, atuando em trading, energia solar e participando de parcerias para lojas de conveniência. Especialistas apontam que essa diversificação excessiva contrastou com a necessidade de foco no core business. Investimentos da holding Cosan, como a aplicação em ações da mineradora Vale, também reduziram a capacidade de suporte financeiro ao grupo quando esses ativos perderam valor.

Os impactos aparecem nos resultados. No exercício 2021/2022, a Raízen registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões e dívida líquida de R$ 13,8 bilhões, com alavancagem de 1,3 vez o Ebitda. No balanço do ano fiscal 2025/2026, entretanto, a empresa reportou prejuízo acumulado de R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre, influenciado por uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões. A dívida líquida subiu para R$ 55,322 bilhões e a alavancagem alcançou 5,3 vezes o Ebitda.

Executivos afirmaram que a companhia tem retomado foco na produção de açúcar e etanol, além da distribuição de combustíveis e lubrificantes, e vem se desfazendo de ativos fora do negócio central. No entanto, tentativas de capitalização enfrentaram divergências entre Shell, Cosan e outros investidores, e um acordo para reforçar o capital não se concretizou.

Linha do tempo resumida

2011 – Criação da Raízen por meio de joint venture entre Cosan e Shell.

2016 – Início da fase de expansão e aposta em E2G.

Agosto/2021 – IPO que movimentou R$ 6,9 bilhões.

Imagem: Divulgação

2021 – Aquisição da Biosev por R$ 3,6 bilhões; anúncio da construção da 3ª e 4ª plantas de E2G.

2022 – Lucro líquido de R$ 3 bilhões; endividamento líquido de R$ 13,8 bilhões.

2024/2025 – Resultados afetados por seca; prejuízo líquido de R$ 4,2 bilhões no ano 2024/2025; dívida líquida chegou a R$ 34,2 bilhões e alavancagem a 3,2x.

Fevereiro/2026 – Prejuízo de R$ 15,6 bilhões até o 3º trimestre do ano fiscal; dívida líquida de R$ 55,322 bilhões; S&P, Moody’s e Fitch retiram o grau de investimento.

Março/2026 – Shell se comprometeu a aportar R$ 3,5 bilhões, mas acordo final de capitalização não foi fechado; empresa admite que pode buscar recuperação extrajudicial.

O quadro combina decisões de investimento, golpes do clima e o aumento do custo da dívida, em um contexto de descompasso entre a estratégia financeira adotada e a evolução do mercado.

Com informações de Infomoney