A Netflix lançou na semana passada a série “Emergência Radioativa”, ambientada em Goiânia (Goiás) e inspirada no acidente com Césio-137 ocorrido em setembro de 1987. A produção acompanha profissionais de saúde e físicos que tentam conter um desastre radiológico e salvar vidas. Todos os episódios foram disponibilizados na quarta-feira (18).

TRANSMISSÃO: Band

Logo após a estreia, a série chegou ao primeiro lugar no ranking de audiência no Brasil e ao segundo lugar no ranking global da plataforma, além de figurar no Top 10 de países como Portugal. Nas redes sociais, a produção motivou comparações com “Chernobyl” e discussões sobre a fidelidade aos fatos, com elogios à direção e às atuações e críticas em relação à verossimilhança histórica.

O que aconteceu em Goiânia

O enredo central remete ao incidente real em que um aparelho de radioterapia, abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia, foi violado. Internamente havia uma cápsula com cloreto de césio contendo 50,9 TBq (1.375 Ci) de radioatividade. Após a violação do equipamento, partículas do material, visíveis como um pó azul brilhante, foram dispersas pela cidade, contaminando residências, ferros-velhos e sendo repassadas entre familiares e conhecidos.

O Césio-137 é um isótopo artificial que se comporta quimicamente de forma semelhante ao potássio e pode acumular-se em plantas, animais e no organismo humano. Sua meia-vida é de cerca de 33 anos, o que implica tempo prolongado de emissão de radiação. O cloreto de césio é altamente solúvel, o que facilitou a disseminação do contaminante.

Exposição, sintomas e identificação

Os principais modos de exposição foram inalação de partículas, ingestão de alimentos contaminados e irradiação externa. Nos primeiros momentos, pessoas expostas apresentaram náuseas, vômitos, diarreia, tontura e queimaduras. O caso só foi corretamente identificado quando a esposa do proprietário do ferro-velho levou o material à Divisão de Vigilância Sanitária, que confirmou a presença de radiação.

O professor Luiz Antonio Andrade de Oliveira, do Instituto de Química da Unesp, ressaltou que em acidentes como o de Goiânia o brilho característico do Césio ajuda na identificação, mas em muitas situações a exposição passa despercebida. Ele explicou que, em casos de contato com a pele, a recomendação é lavar abundantemente com água e sabão, enquanto inalação ou ingestão tornam o tratamento mais complexo. Pessoas com ingestão em alta concentração receberam medicamentos para tentar remover o elemento do organismo, embora muitas tenham evoluído a óbito.

Monitoramento, tratamentos e consequências

O governo de Goiás monitorou 112.800 pessoas; 249 apresentaram contaminação interna e/ou externa significativa. Entre elas, 120 tinham contaminação restrita a roupas e calçados e foram liberadas após descontaminação; 129 passaram a receber acompanhamento médico contínuo. Destes, 79 com contaminação externa foram tratados ambulatorialmente. Dos 50 com contaminação interna, 30 foram mantidos em albergues em semi-isolamento e 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Quatorze casos considerados graves foram transferidos ao Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro: quatro pacientes morreram, oito desenvolveram Síndrome Aguda da Radiação (SAR), 14 tiveram falência de medula óssea e um sofreu amputação do antebraço.

Série "Emergência Radioativa" revisita acidente do Césio-137 que marcou Goiânia

Imagem: Divulgação

No total, 28 pessoas apresentaram a Síndrome Cutânea da Radiação, com lesões conhecidas como radiodermites. Os óbitos relacionados ao acidente ocorreram entre quatro e cinco semanas após a exposição, por complicações da SAR, como hemorragia e infecção generalizada.

Para acompanhar os efeitos a longo prazo, o governo criou em fevereiro de 1988 a Fundação Leide das Neves Ferreira, com protocolos de monitoramento baseados em normas internacionais. A avaliação da contaminação externa incluiu análises cromossômicas; a interna foi medida por análise de excretas e por técnicas de contagem de corpo inteiro (monitoração in vivo), permitindo estimativas das doses recebidas.

Resíduos, repositório e legado

O acidente gerou cerca de 3.500 m³ de lixo radioativo, armazenados em contêineres de concreto. O depósito definitivo fica em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, sob responsabilidade do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que realiza monitoramento e controle ambiental contínuo.

O episódio alterou protocolos de segurança e estimulou estudos científicos sobre manuseio e riscos de materiais radioativos, além de permanecer como marco na memória coletiva. A série “Emergência Radioativa” revisita essa história ao mesmo tempo em que traz o tema de volta ao debate público.

Com informações de Olhardigital