Kanye West lançou o álbum Bully, que, segundo avaliações, representa um retorno parcial à forma do artista — principalmente na produção e nas rimas —, enquanto mantém hábitos problemáticos que marcaram seus últimos trabalhos. O disco surge após uma sequência de projetos irregulares e controversos que vinham minando a credibilidade do músico.
Nos últimos anos, West alternou entre o produtor visionário por trás de discos como The College Dropout (2004), Graduation (2007), 808s & Heartbreak (2008) e The Life of Pablo (2016), e a persona pública errática conhecida como Ye. Desde Jesus Is King (2019), a crítica observa perda de interesse em finalizar trabalhos: Donda (2021) teve pontos fortes, mas foi considerado inchado e repetitivo; Donda 2 (lançado em 2022 via Stem Player e que chegou ao streaming no ano passado) foi visto como um conjunto de demos; e os álbuns Vultures 1 e Vultures 2 (2024) foram apontados como execuções preguiçosas, com problemas de mixagem, versos incompletos e uso de inteligência artificial.
Em contraste, Bully apresenta dois aspectos que marcaram o melhor de Kanye: a produção e o rap. A produção retoma camadas bem trabalhadas, samples selecionados e baterias intensas. O álbum abre com a faixa “King”, que tem participação de Duke Edwards, e inclui músicas como “Mama’s Favorite” e a faixa-título, que exibem identidade sonora em vez de colagens sobre 808s genéricos.
No plano vocal, West voltou a rimar com mais clareza. “Preacher Man” recorre a um sample de The Moments (“To You With Love”) e traz um dos flows mais cortantes do disco, com letras sobre traição e lealdade. Em “Sisters and Brothers”, o artista reflete sobre como é tratado durante seus hiatos e afirma que o dinheiro é “a raiz de todo mau”, enquanto demonstra versos mais estruturados do que em lançamentos recentes.
As participações também ganharam destaque: Travis Scott e Andre Troutman colaboram em duas das melhores faixas do álbum, “Father” e “All The Love”. “Father” abre com órgãos de igreja que evoluem para uma bateria pesada, utilizando sample de Johnnie Frierson e produção creditada a Havoc, do Mobb Deep. Em “All The Love”, o talkbox de Andre Troutman (primo de Roger Troutman) cria uma paisagem eletrônica que lembra Yeezus, mas com uma dimensão mais humana, enquanto Kanye canta sobre deixar a dor para trás.
Nem todas as participações foram igualmente efetivas: Don Toliver e Peso Pluma trazem versos interessantes, mas as músicas em que aparecem não necessariamente acrescentam ao conjunto do álbum.
Imagem: Ap
Apesar dos acertos, Bully ainda traz defeitos evitáveis. Algumas faixas soam apressadas, com indícios de processamento artificial em vozes e harmonias; várias músicas são curtas e terminam abruptamente, evidenciando ausência de desenvolvimento — uma falha que reforça traços associados à fase mais recente do artista. A crítica sugere que, com mais tempo de acabamento, melhor mixagem e menos dependência de IA, o projeto poderia ter se saído melhor.
No balanço, Bully é apontado como um álbum bom, com faixas que justificam replays não só pelo nome do autor, mas pela qualidade de produção e de alguns refrões. Não chega a apagar os problemas dos últimos anos nem as polêmicas públicas, mas indica que West ainda é capaz de produzir música relevante quando se dedica ao processo.
Com informações de Rollingstone

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6