Pesquisadores da Universidade de Washington, liderados pelo astrônomo Rodolfo Garcia, executaram 234 mil simulações para investigar por que Vênus e a Terra, planetas vizinhos em massa e distância do Sol, seguiram rotas evolutivas tão distintas. O grupo usou o software VPLanet no Laboratório de Planetas Virtuais (VPL) para reproduzir 4,5 bilhões de anos da história de Vênus, variando condições iniciais e propriedades físicas do interior, da crosta e da atmosfera.

Quatro cenários explicam a crosta densa e a atividade limitada

As simulações partiram do pressuposto de que Vênus sempre apresentou uma “tampa estagnada” na crosta, sem placas tectônicas móveis como as da Terra. O modelo aplicou três restrições observacionais: pressão de dióxido de carbono equivalente a 92 bar, pressão de vapor d’água de aproximadamente 3 milibares e um campo magnético muito fraco, inferior a 0,01% do campo terrestre. Das 234 mil tentativas, apenas 808 simulações (0,35% do total) reproduziram simultaneamente essas condições.

Entre os resultados que atenderam às restrições, os autores identificaram quatro trajetórias distintas. No caminho mais frequente — denominado “convencional” e representando 72% das execuções bem-sucedidas — manto e núcleo esfriam de forma lenta, conforme previsto por modelos anteriores. Em 18% dos casos, a perda significativa de água do manto levou ao endurecimento da crosta e ao bloqueio da dinâmica interna, gerando um planeta seco e tectonicamente inativo. Em 10% das simulações, o núcleo interno nunca se formou completamente, comprometendo a geração de um campo magnético ativo. Um quarto cenário, raro, apresentou grandes oscilações de temperatura e atividade interna nos primeiros 500 milhões de anos antes de estabilizar no estado atual.

Parâmetros como a quantidade inicial de água, a viscosidade do manto, a resistência à desidratação, a eficiência vulcânica e o ponto de fusão do núcleo mostraram-se decisivos para que o planeta alcançasse a configuração observada hoje, com crosta densa e atividade geológica reduzida.

Água interna e atividade geológica

O estudo, disponibilizado em pré-impressão no repositório arXiv (arXiv:2603.18070), indica que Vênus pode reter, em seu interior, uma quantidade de água equivalente a pelo menos um oceano terrestre e que o planeta ainda apresenta atividade geológica em níveis inferiores aos da Terra. A maioria das simulações também aponta que Vênus teria tido um campo magnético no passado, vestígios dos quais poderiam estar preservados em rochas superficiais.

Mais de 200 mil simulações traçam possíveis caminhos que tornaram Vênus inóspito

Imagem: Divulgação

Nos próximos anos, as missões DAVINCI e VERITAS, ambas da NASA, e a EnVision, da Agência Espacial Europeia (ESA), devem mapear a superfície venusiana, atravessar suas nuvens densas e coletar dados atmosféricos e geológicos que poderão testar as previsões geradas por este trabalho. Instrumentos como o Telescópio Espacial James Webb (JWST) e o futuro Observatório de Mundos Habitáveis (HWO), da NASA, também contribuem para comparar Vênus com exoplanetas rochosos e avaliar quais mundos podem evoluir de forma semelhante à Terra ou tornar-se inóspitos.

Com informações de Olhardigital