Pesquisadores anunciaram a análise de um fóssil de 500 milhões de anos de um artrópode relacionado às aranhas, cuja morfologia contraria expectativas sobre organismos do período Cambriano (538,8 milhões a 485,4 milhões de anos atrás). A espécie foi batizada de Megachelicerax cousteaui e mostra estruturas frontais em forma de garras em posição cefálica, em vez de antenas, como era comum entre artrópodes daquele intervalo geológico.

Quem, onde e quando

O estudo foi liderado pelo paleontólogo Rudy Lerosey-Aubril, da Universidade de Harvard (EUA). O exemplar de M. cousteaui havia sido coletado há mais de 40 anos em uma região desértica no oeste de Utah (EUA) e só recentemente recebeu atenção detalhada por parte da equipe de pesquisa.

O que foi observado e como foi feito o estudo

Ao examinar o material, a equipe identificou garras projetando-se da cabeça do animal, uma característica incomum para quelicerados primitivos. Lerosey-Aubril constatou a preservação excepcional dos apêndices e dedicou mais de 50 horas à preparação do fóssil, trabalhando com um microscópio e uma agulha para remover sedimentos e expor a anatomia fina. O exoesqueleto preservado inclui um escudo cefálico e nove segmentos corporais bem definidos.

Os quelicerados — grupo que reúne aranhas, escorpiões e caranguejos-ferradura — tipicamente exibem um corpo dividido em cefalotórax e abdome, quatro pares de pernas locomotoras e duas estruturas frontais, as quelíceras e pedipalpos, usadas para agarrar. A morfologia de M. cousteaui indica um nível de especialização dos membros anterior ao que se observa em formas que evoluíram para funções semelhantes às das pernas de aranhas modernas.

Relevância e implicações

A presença dessas garras em um fóssil do Cambriano empurra a história evolutiva dos quelicerados para cerca de 20 milhões de anos antes do estimado anteriormente, oferecendo novas informações sobre a origem e a diversificação das estruturas de preensão nesse grupo. Segundo o coautor Javier Ortega-Hernández, conservador de Paleontologia de Invertebrados no Museu de Zoologia Comparada de Harvard, o material ajuda a conciliar hipóteses concorrentes sobre a sequência evolutiva dessas partes do corpo.

Imagem: Divulgação

A preservação do espécime, comparada a outros organismos do período, como trilobitas, fornece um retrato detalhado de uma tendência evolutiva que aproxima certas características desses ancestrais das formas encontradas em representantes atuais do grupo. A espécie recebeu o nome em homenagem ao explorador Jacques-Yves Cousteau, e o achado — feito por um paleontólogo amador — ressalta o papel de descobertas fortuitas em rochas locais.

O trabalho acrescenta evidências sobre a complexidade anatômica presente já no início da radiação dos quelicerados, sem, no entanto, alterar as datas e números documentados neste relato.

Com informações de Olhardigital