O neurocientista Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital, afirmou em entrevista que a chegada de uma inteligência artificial geral (AGI) pode ocorrer dentro de alguns anos, porém não na forma como o público costuma imaginar. Em sua análise, o avanço da IA deve ser entendido a partir de uma intersecção entre tecnologia, mercado e política estatal.

Álvaro avaliou a evolução desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022, e disse que algumas transformações seguiram uma trajetória previsível, outras avançaram mais lentamente e algumas surpreenderam pela velocidade. Entre os pontos que destoaram das expectativas, ele citou a persistência das chamadas “alucinações” em modelos de linguagem e a demora na implantação de conversas com “buffer zero” — interação em tempo real e totalmente natural — em aplicações cotidianas.

Em contrapartida, o pesquisador destacou a rápida incorporação da IA nas políticas de Estado, citando como surpresa a adoção desse paradigma por governos como o de Donald Trump, além do já esperado interesse chinês dentro de seus planos quinquenais.

Sobre liderança na corrida pela IA, Álvaro afirmou que, atualmente, o Ocidente lidera o campo em diversos parâmetros, incluindo inovação na produção de chips, instalação de servidores e desenvolvimento de grandes modelos fundacionais. Ele apontou a complexidade da cadeia global de suprimentos para microchips como um fator que favorece países ocidentais e parceiros como Taiwan, Holanda, Alemanha, Japão e Estados Unidos.

O pesquisador considerou a TSMC, de Taiwan, a empresa mais estratégica no momento, por seu papel crítico na fabricação de chips que abastecem fornecedores como a NVIDIA. Em segundo plano, citou a NVIDIA, ressaltando também o papel do software CUDA no desempenho das placas da empresa. Além disso, mencionou a importância de players como a ASML, da Holanda.

Sobre a China, Álvaro avaliou que o país tem grande potencial para superar o consórcio ocidental no futuro, não por ter replicado integralmente a cadeia ocidental de produção de chips, mas por uma convergência tecnológica que tornaria a diferenciação menos decisiva. Ele explicou que à medida que o empacotamento dos transistores se aproxima de escalas de alguns nanômetros surgem efeitos quânticos que nivelam o campo de jogo, e lembrou que já existem projetos da TSMC para circuitos de três nanômetros em 2026.

Especialista prevê chegada da inteligência artificial geral em alguns anos, mas diz que será diferente do imaginado

Imagem: Divulgação

No mercado consumidor, Álvaro previu maior especialização entre empresas que oferecem IA diretamente ao público. Ele citou movimentos recentes como a desativação do Sora pela OpenAI para focar em agentes de IA e apontou a Anthropic como um exemplo de aposta na especialização, especialmente em programação e uso corporativo.

Quanto à possibilidade de alcançar uma AGI completa, Álvaro defendeu que a discussão deve considerar fatores econômicos e de produto. Em vez de uma única IA capaz de tudo, ele aposta em uma arquitetura do tipo Mixture of Experts (MOE), com várias IAs especializadas sob uma interface única. Para ele, a superação dos desafios práticos — por exemplo, autonomia robótica em ambientes não mapeados — ainda depende de avanços substanciais em software e integração com robótica.

Por fim, o pesquisador avaliou que previsões iniciais sobre a chegada de uma AGI “no sentido amplo” seguem plausíveis entre meados da década de 2030 e 2040, observando que pode faltar cerca de uma década — “talvez uma década, talvez oito anos” — para que sistemas igualem ou superem humanos em quase todas as tarefas imagináveis. Mesmo assim, Álvaro reiterou que, por um período significativo, a tendência será a coexistência de várias IAs especialistas operando sob uma camada de interface singular.

Com informações de Olhardigital