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Empresas da construção civil seguem relatando escassez de pedreiros e mestres de obra, e dirigentes do setor afirmam que as explicações simples — como benefícios sociais ou aplicativos de transporte — não explicam por completo o problema. O diretor do Sinduscon-SP, David Fratel, diz que a profissão perdeu atratividade e precisa se adaptar para receber trabalhadores mais jovens.

O que os dados mostram

Pesquisas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), conduzidas por Daniel Duque, indicam que a falta de mão de obra tem múltiplas causas, com um componente estrutural predominante. Duque destaca transformações demográficas e educacionais iniciadas nos anos 1990: a taxa de fecundidade caiu ao longo das últimas décadas e hoje situa-se abaixo de 1,6 filho por mulher, enquanto a escolaridade média da população subiu. Essas mudanças reduziram o contingente absoluto de jovens em idade ativa, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, onde a construção emprega mais.

Ao contrário de países ricos, o Brasil não acompanhou essas transformações com forte automação nem políticas de imigração, e mantém uma estrutura produtiva que pressupõe mão de obra abundante. A importação de tecnologia esbarra em custos elevados e em tributação elevada sobre bens de capital, além de medidas tributárias recentes sobre equipamentos.

Duque reconhece impacto do Bolsa Família sobre a oferta de trabalhadores em grupos específicos — sobretudo homens jovens nas regiões Norte e Nordeste — em um período entre 2020 e 2023, quando o programa cresceu no contexto da pandemia. Ainda assim, segundo os dados analisados, o efeito do programa não é a principal causa da escassez. O Bolsa Família reduziu de 21 milhões para cerca de 18 milhões de famílias nos últimos anos, enquanto empresários relatam agravamento da falta de profissionais.

A economia por aplicativo também aparece nos levantamentos. São cerca de 1,7 milhão de trabalhadores em plataformas no país, concentrados entre homens jovens em capitais. A pesquisa sugere que os apps funcionam mais como uma alternativa de transição profissional do que como responsável direto pela retirada de mão de obra da construção.

Rotatividade e estigma

O estudo aponta aumento da rotatividade de ocupação no pós-pandemia, o que onera empregadores com processos seletivos e treinamento e amplia a percepção de escassez quando o desemprego cai. Há ainda um fator cultural persistente: o estigma ligado ao trabalho braçal, legado que, segundo Duque, reduz a valorização do ofício e contribui para salários baixos e baixo prestígio.

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Modernização e desafios de gestão

Na tentativa de enfrentar o problema, Fratel coordena uma agenda de modernização com sindicatos e o Senai, que inclui mudança de nomenclaturas (como usar “montador de drywall” em vez de “pedreiro”), certificação de trilhas profissionais e maior industrialização dos métodos construtivos. Exemplos citados são painéis pré-moldados que permitem erguer dez metros quadrados de parede em dez minutos, frente a um dia inteiro por técnicas convencionais. Apesar disso, cerca de 70% das obras ainda usam métodos tradicionais, que geram aproximadamente 30% de desperdício de material.





Outra deficiência apontada é a gestão: o setor não mede com precisão produtividade e necessidade de homens-hora por obra. A construção emprega cerca de 8 milhões de pessoas, das quais apenas 3 milhões têm carteira assinada. Para a patronal, a prioridade é qualificação, industrialização e aumento de produtividade antes de discutir aumentos salariais ou redução de jornada; para representantes de trabalhadores, pagar melhor seria essencial para atrair mão de obra.

Fratel afirma que a transformação da profissão e a modernização precisam ocorrer em conjunto e que o desafio do país é acelerar essa transição para que a construção volte a atrair trabalhadores.

Com informações de Investnews