CARACAS, Venezuela — Após a captura do presidente Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos em janeiro, a sucessora interina, Delcy Rodríguez, vem promovendo uma série de demissões, prisões e afastamentos entre figuras próximas ao ex-presidente, segundo relatos de fontes ligadas ao governo.

Rodríguez, ex-vice-presidente de Maduro, assumiu o cargo poucas horas depois da detenção de Maduro, em 3 de janeiro, qualificando a ação como uma agressão ilegal. Desde então, ela tem conduzido uma reestruturação extensa da administração venezuelana: em três meses, substituiu 17 ministros, trocou comandantes militares, nomeou novos diplomatas e supervisionou prisões de empresários vinculados ao círculo do ex-presidente.

Entre as mudanças no alto escalão estão a demissão do ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, que foi realocado para um cargo de menor destaque na área de agricultura; a saída do procurador-geral Tarek William Saab, que ocupou cargos de consolação antes de deixar o posto; e a perda de funções de assessores e parentes de Maduro, como o afastamento do filho Nicolás Maduro Guerra e de Yosser Gavidia Flores, sobrinho de Cilia Flores, de negócios com o Estado.

O processo também incluiu a perda de postos por funcionárias ligadas ao círculo governista. Camilla Fabri, enviada de Maduro para questões de imigração, foi destituída; dias depois, seu marido foi detido. O primeiro aliado de destaque a ser publicamente descartado foi o empresário Alex Saab, identificado como marido de Fabri e com contratos preferenciais de alimentos e petróleo. Em 16 de janeiro Rodríguez anunciou nas redes sociais que Saab deixava um cargo ministerial e, duas semanas depois, ele foi detido. Autoridades americanas e o governo de Rodríguez negociam o destino de Saab, incluindo possibilidade de extradição para os Estados Unidos.

Rodríguez também teria supervisionado a detenção de ao menos outros dois empresários ligados à família de Maduro: Raúl Gorrín e Wilmer Ruperti, que enfrentam acusações relacionadas a corrupção nos EUA. As detenções e as remoções ocorreram frequentemente sem explicações públicas e, segundo fontes próximas ao novo governo, muitas vezes com o aval — e, em alguns casos, a pedido — da Casa Branca.

Fontes ouvidas sob condição de anonimato dizem temer retaliações; algumas relatam vigilância por parte da polícia secreta e consideram deixar Caracas ou buscar exílio. A ação de Rodríguez, coordenada em partes com o governo do presidente Donald Trump, é vista por funcionários venezuelanos como respaldada por ameaças de nova intervenção militar caso as novas lideranças não cooperem.

A reordenação política e institucional também atingiu as Forças Armadas, com a demissão de sua cúpula em março, e provocou uma reorganização do acesso a contratos estatais, especialmente no setor petrolífero. Enquanto isso, elites econômicas tradicionais e investidores ocidentais têm recuperado espaço: empresários que antes se aproximavam da oposição passaram a reintegrar mercados externos e o sistema bancário dos EUA, e investidores têm buscado oportunidades nos setores de petróleo, mineração e turismo, segundo relatos.

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Até o momento, apenas um ministro de primeira linha originalmente ligado a Maduro permanece em posto relevante: Diosdado Cabello, ministro do Interior e figura central do aparelho de repressão do partido governista. Cabello é alvo de acusações nos Estados Unidos por narcotráfico, mas segue como um ator influente, tanto por seus vínculos com grupos armados pró-governo quanto por seu papel político.

Para aliados afastados e membros do antigo núcleo de poder, a mudança representa incerteza e risco: mais de uma dúzia deles falaram com jornalistas temendo retaliação, e muitos evitam aparecer publicamente. A Casa Branca, por sua vez, declarou manter uma relação “mutuamente benéfica” com o governo de Rodríguez, afirmando que o fluxo de petróleo e as entradas financeiras poderão beneficiar a população venezuelana.

As demissões, prisões e realocações executadas por Delcy Rodríguez configuram uma das maiores redistribuições de poder na Venezuela das últimas décadas, transformando a malha política em torno das reservas petrolíferas do país enquanto os mercados globais enfrentam turbulência no setor energético.

Com informações de Infomoney