Por Belinha Almendra

Quarenta anos depois da fabricação do primeiro CD no Brasil, o mercado fonográfico registra um movimento de retorno do disco de vinil às prateleiras, mesmo em plena era do streaming. O formato, que chegou a ser visto como peça de museu após a popularização do CD e, depois, do consumo digital, tem ganhado espaço entre consumidores, especialmente os mais jovens.

Levantamento da Pró-Música Brasil realizado em 2025 mostra que, entre as mídias físicas comercializadas no país, os discos de vinil responderam por 76,4% das vendas. Esse aumento de demanda tem sido reflexo de mudanças no comportamento do público e também de investimentos na cadeia produtiva do formato.

O músico e pesquisador Charles Gavin recorda que, desde 1999, vem realizando projetos dedicados a recuperar álbuns esquecidos nos acervos das grandes gravadoras. Segundo ele, o trabalho de pesquisa em livros, jornais, sebos e coleções particulares permitiu relançar mais de 500 títulos em seus formatos originais, resgatando repertórios que muitas vezes não estavam disponíveis em CD.

Em 2007, Gavin assumiu o comando do programa O Som do Vinil, no Canal Brasil, iniciativa que permaneceu no ar por 16 anos. Ao todo, foram produzidos 357 episódios em 16 temporadas, nos quais artistas e produtores foram entrevistados sobre discos considerados fundamentais para a música brasileira. O formato do programa buscou mapear a diversidade da produção musical do país por meio da seleção de álbuns emblemáticos.

No campo da produção física, a retomada envolveu também a volta da manufatura local. Em 2009, a Deckdisc, sob a liderança do produtor e empresário João Augusto, adquiriu a antiga Polysom, que havia sido desativada em 2007. A fábrica, totalmente modernizada, chegou a ser a única na América Latina naquele período e atualmente atua no mercado nacional ao lado da Vinil Brasil e da Rocinante.

Luciano Barreira, gerente da Polysom, afirma que o aumento nas vendas se reflete diretamente na linha de produção e exige revisões constantes em processos e capacidade produtiva para atender à demanda. Segundo ele, a expansão observada no mercado internacional de discos físicos tende a se manter nos próximos anos.

Vinil retoma espaço no mercado 40 anos após chegada do CD ao Brasil

Imagem: Divulgação

Os indicadores externos também mostram crescimento: a Key Production informou que a produção de vinil na Europa subiu 50% em 2025. No Reino Unido, dados da British Phonographic Industry registraram alta de 10,7% no terceiro trimestre de 2025, com 1,49 milhão de unidades vendidas. Nos Estados Unidos, o Year-End Music Report apontou que as vendas de vinil cresceram pelo 19º ano consecutivo em 2025, com alta de 9%, acumulando quase 48 milhões de unidades.

Para Gavin, o apelo do vinil está na experiência que o formato oferece, distinta da forma de consumo proposta pelo streaming. Barreira acrescenta que jovens sem contato prévio com mídias físicas encontram no disco a oportunidade de vivenciar a música de maneira mais concreta, por meio do objeto, da arte gráfica e da experiência de tocar o disco.

A presença renovada do vinil nas lojas e os números de vendas indicam uma reconfiguração no mercado fonográfico, em que o formato analógico ocupa uma fatia relevante das mídias físicas comercializadas em 2025.

Com informações de Abramus.org