Pesquisas recentes indicam que meninas e mulheres têm sido subdiagnosticadas em relação ao transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), e que uma parcela significativa só descobre a condição na vida adulta. Especialistas apontam diferenças na apresentação dos sintomas e em ferramentas de diagnóstico como causas principais desse atraso.

Quem e o que: Sarah Greenberg, psicoterapeuta licenciada e vice-presidente de expertise e design estratégico da organização Understood.org, afirma que mulheres têm maior probabilidade de apresentar o chamado “TDAH desatento” em vez do tipo hiperativo. Enquanto a hiperatividade costuma ser visível, a desatenção se manifesta internamente e pode parecer devaneio ou olhar fixo, embora haja intensa atividade cerebral por trás desses comportamentos.

Diagnóstico incorreto e consequências

Estudo da Understood.org mostra que 72% das mulheres com TDAH apresentam pelo menos duas outras condições de saúde mental, como ansiedade ou depressão, e 44% receberam inicialmente diagnóstico de ansiedade, depressão ou outra condição mental. Além disso, 89% atribuíram seus sintomas — desorganização, excesso de reflexão e atrasos crônicos — a falhas de caráter.

O diagnóstico errado tem impacto sério: TDAH não tratado tem sido associado a maiores taxas de abuso de substâncias, acidentes de carro, divórcio e tentativas de suicídio. Segundo a Understood.org, 23,5% das mulheres diagnosticadas com TDAH relatam histórico de tentativas de suicídio, contra 8,5% dos homens com TDAH.

A historiografia médica também pesa: Greenberg lembra que, no passado, mulheres eram rotuladas com termos como “histeria” para explicar uma série de problemas emocionais, e que essa tendência ainda influencia a probabilidade de receber um diagnóstico emocional em vez de TDAH, que é uma diferença neurológica.

Dados epidemiológicos e mudanças recentes

Relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de 2022 indicou que meninos têm o dobro da probabilidade de serem diagnosticados com TDAH. Já pesquisa de 2022 da Epic Research observou que, entre 2020 e 2022, mulheres de 23 a 49 anos tiveram diagnóstico de TDAH duas vezes mais frequentemente. Em 2022, homens foram diagnosticados com TDAH em taxa 28% maior que mulheres, queda em relação aos 133% registrados em 2010.

Na província canadense de Ontário, em 2023, prescrições de estimulantes — comuns no tratamento do TDAH — foram mais prevalentes entre mulheres adultas de 18 a 64 anos do que entre homens.

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Tratamentos e reconhecimento pós‑pandemia

Especialistas ressaltam que muitas mulheres tratam sintomas com antidepressivos antes de um diagnóstico de TDAH: um estudo de 2024 no País de Gales mostra maior probabilidade de mulheres receberem antidepressivos antes do diagnóstico e de interromperem depois. A Dra. Julia Schechter, psicóloga clínica da Escola de Medicina da Universidade Duke e codiretora do Centro Duke para Meninas e Mulheres com TDAH, relata que pacientes frequentemente chegam ao diagnóstico após anos em que receberam tratamentos que não foram eficazes.

A pandemia de Covid‑19 contribuiu para o aumento da conscientização. Mudanças nas rotinas e no ambiente de trabalho e o uso de redes sociais levaram muitas pessoas a reconhecer sintomas. Pais que acompanharam ensino remoto também identificaram sinais em filhos e, ao buscar explicações, perceberam semelhanças em si mesmos. Emma Climie, professora associada da Escola de Psicologia Aplicada e diretora do Laboratório de Forças no TDAH da Universidade de Calgary, destaca o componente hereditário do transtorno e diz que a pandemia foi um ponto de virada cultural na percepção do TDAH em mulheres e meninas.

Greenberg observa que a proporção entre gêneros está se aproximando da paridade: enquanto antes se diagnosticava três meninos para cada menina, hoje a razão tende a dois para um, e na idade adulta a diferença vem diminuindo ainda mais.

Com informações de Fastcompanybrasil