Um estudo liderado por cientistas da Harvard University concluiu que a seleção natural permaneceu ativa ao longo dos últimos dez mil anos e pode ter se intensificado nesse período, influenciando centenas de genes em populações da Eurásia Ocidental. A pesquisa foi publicada na Nature e baseou-se em uma vasta amostra de genomas antigos combinada com dados modernos.

A equipe analisou quase 16 mil genomas antigos obtidos de esqueletos encontrados em diferentes regiões da Europa e do Oriente Médio, integrando esses dados a mais de 6,4 mil genomas atuais. Os pesquisadores aplicaram um algoritmo capaz de seguir a expansão e o declínio de variantes genéticas ao longo do tempo, distinguindo mudanças impulsionadas pela seleção direcional de efeitos causados por migrações, mistura de populações ou deriva genética em grupos pequenos.

Com esse procedimento, os autores identificaram pelo menos 479 variantes genéticas — ou alelos — que sofreram forte seleção positiva ou negativa na Eurásia Ocidental nos últimos dez milênios. Antes deste trabalho, apenas algumas dezenas de alterações recentes haviam sido atribuídas com segurança à seleção natural.

Os resultados indicam que a intensidade da seleção natural aumentou após a transição das sociedades humanas de caçadoras-coletoras para comunidades agrícolas, mudança ocorrida após o fim da última era glacial. Segundo os autores, a disponibilidade de grande quantidade de DNA antigo permite agora observar, em escala temporal, como a seleção atuou sobre a biologia humana.

Mais de 60% das variantes relativamente recentes ainda estão associadas a características presentes nas populações atuais. Entre os traços relacionados às variantes selecionadas estão pele mais clara, cabelo ruivo, maior resistência à infecção por HIV, proteção contra hanseníase, menor probabilidade de calvície masculina, redução no risco de artrite reumatoide e alcoolismo, presença do tipo sanguíneo B, menor risco de transtornos como bipolaridade e esquizofrenia, e índices corporais mais baixos — incluindo menor gordura corporal, relação cintura-quadril e índice de massa corporal. Os pesquisadores também observaram evidências de menor suscetibilidade ao tabagismo.

O estudo ressalta que nem sempre a relação entre variante e característica atual reflete a pressão seletiva original. Como exemplo, variantes associadas ao comportamento ligado ao tabaco foram selecionadas por outros fatores, já que a planta só chegou à Eurásia no século XVI. Outro caso citado é a predisposição à doença celíaca que apareceu após a domesticação do trigo, ilustrando a complexidade das forças seletivas ao longo do tempo.

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Método e próximos passos

Os autores descrevem o método computacional como inovador para a genômica humana em ampla escala e planejam estender a análise a outras regiões, como o Leste Asiático, a África Oriental e populações indígenas das Américas, para verificar se padrões semelhantes de seleção podem ser detectados fora da Eurásia Ocidental.

Os pesquisadores afirmam que esses achados permitem estudar, em períodos recentes, as pressões seletivas que moldaram variações biológicas nas populações humanas.

Com informações de Olhardigital