O investidor americano Michael Burry, conhecido por ter previsto a crise financeira de 2008, afirmou em uma publicação no Substack que a valorização de ações ligadas à inteligência artificial apresenta semelhanças com a bolha das pontocom do fim dos anos 1990. Ele aconselhou investidores a reduzir a exposição em papéis de tecnologia e a evitar a ganância.

O alerta foi feito após o S&P 500 atingir uma nova máxima histórica, enquanto indicadores de sentimento do consumidor registraram níveis historicamente baixos. Segundo Burry, o atual movimento do mercado deixou de responder aos fundamentos econômicos e passou a ser impulsionado pelo próprio avanço dos preços.

O investidor chamou atenção para o desempenho do Philadelphia Semiconductor Index, que subiu mais de 10% em uma semana e acumula alta de 65% no ano de 2026. Para ele, essa escalada nos preços das ações de semicondutores reproduz com precisão o comportamento observado nos meses que antecederam o estouro da bolha das pontocom em março de 2000.

Em nota, Burry declarou que as compras não se baseiam em dados de emprego ou no humor do consumidor, mas em um efeito de alta autorreforçada. Ele também usou a expressão “tese de duas letras” para se referir à inteligência artificial como motor dessa euforia.

Em novembro do ano passado, Burry voltou a chamar a atenção do mercado ao adotar posição contrária à Nvidia. Na ocasião, o fundo de hedge ligado a ele, a Scion Asset Management, comprou o equivalente a US$ 1 milhão em opções de venda (puts) da fabricante de chips, depois de a empresa ter alcançado o marco de US$ 5 trilhões em valor de mercado.

A bolha da internet

A bolha das pontocom foi um fenômeno especulativo entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2000, alimentado pela expectativa de que a internet transformaria a economia. Investidores e venture capital aplicaram recursos em startups digitais com pouca ou nenhuma comprovação de viabilidade financeira. O Nasdaq subiu mais de 400% entre 1995 e o pico de março de 2000.

Quando se tornou evidente que muitas dessas empresas não gerariam lucro, o índice caiu cerca de 78% nos dois anos seguintes, eliminando aproximadamente US$ 5 trilhões em valor de mercado. Exemplos de empresas que fecharam incluem a Pets.com; já empresas como Amazon e Google sobreviveram, apesar de sofrerem quedas antes de se recuperar.

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O que foi a crise do subprime

Para contextualizar a credibilidade de Burry, é preciso lembrar a expansão do crédito imobiliário nos EUA que levou à crise do subprime. Bancos concederam empréstimos de alto risco, que foram transformados em produtos financeiros complexos e vendidos globalmente com notas elevadas de agências de risco. Quando os preços imobiliários deixaram de subir e a inadimplência aumentou, o sistema financeiro sofreu perdas severas.

O colapso culminou com a falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, a seca de crédito e uma recessão global considerada a pior desde a Grande Depressão.

A grande aposta

Michael Burry, cuja formação é em medicina, estudou prospectos de títulos hipotecários e identificou cláusulas que tornariam as parcelas insustentáveis para muitos mutuários após um período inicial de juros baixos. Em 2005, ele buscou comprar credit default swaps como proteção contra esses títulos. Apesar do ceticismo de grandes bancos e da insatisfação de alguns investidores em sua gestora, o fundo Scion Capital obteve lucros quando a crise explodiu — cerca de US$ 700 milhões para o fundo, com aproximadamente US$ 100 milhões de ganhos pessoais para Burry.

Sua história foi retratada no filme A Grande Aposta (The Big Short), de 2015, dirigido por Adam McKay, no qual o personagem que o representa foi interpretado por Christian Bale.

Com informações de Infomoney