O mercado brasileiro de veículos eletrificados segue em expansão: segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), já circulam mais de 700 mil carros eletrificados no país, e apenas no primeiro trimestre de 2026 foram vendidos quase 94 mil veículos leves eletrificados — alta de 110% em relação ao mesmo período de 2025.

O avanço é puxado por maior oferta de modelos, variação de preços, ampliação da rede de recarga e aumento do custo do petróleo. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo setor apontam desafios relacionados à mudança de hábito do consumidor, à capacidade de geração e distribuição de energia e à concentração da infraestrutura nas regiões Sul e Sudeste.

Tipos de veículos eletrificados

O mercado reúne diferentes tecnologias. Entre os totalmente elétricos (BEV) estão modelos como BYD Dolphin e GWM Ora 03. Veículos com célula de combustível (FCEV), alimentados por hidrogênio, têm exemplos no exterior, como o Toyota Mirai, mas ainda não são ofertados no Brasil.

Também há variados graus de híbridos: leves (MHEV), que dão suporte ao motor a combustão; híbridos plenos (HEV), capazes de rodar às vezes apenas a partir da energia elétrica; e híbridos plug-in (PHEV), com bateria maior recarregável em tomadas. Fabio Delatore, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, afirma que as categorias se distinguem pelo quanto contribuem para reduzir emissões e que a escolha depende do perfil e do custo que o consumidor aceita.

Participação nas vendas e perfil de mercado

Dados da ABVE de março mostram que veículos leves eletrificados representaram 14% das vendas no mês. No trimestre, a participação foi de 15% em janeiro (23.706 unidades), 14% em fevereiro (24.885) e 14% em março (35.356). Em março, os BEV responderam por 39,8% das vendas, os PHEV por 35%, híbridos flex por 13,9% e híbridos convencionais por 11,3%.

A entrada de montadoras chinesas ampliou a oferta: além da BYD e da GWM, marcas como Denza (BYD), Geely (em parceria com Renault) e Leapmotor (grupo Stellantis) chegaram ao país. O crescimento da concorrência também influencia preços: o Dolphin Mini, por exemplo, é ofertado a R$ 119.990, enquanto modelos como Geely EX2, Caoa Chery iCar e JAC E-JS1 são cotados em faixas similares.

Contexto internacional

O relatório Electric Vehicle Outlook 2025, da BloombergNEF, estimou 22 milhões de carros eletrificados vendidos globalmente em 2025, um aumento de 25% sobre 2024, correspondendo a um quarto das vendas mundiais. A China respondeu por cerca de dois terços das vendas globais em 2025, seguida por Europa (17%) e Estados Unidos (7%). Na Europa, entre janeiro e março de 2026, BEV alcançaram 20% de participação de mercado e PHEV 9%; veículos a combustão caíram para 31%.

No plano global, fatores como redução do custo de baterias e políticas de incentivo em países europeus favoreceram o crescimento. Já os Estados Unidos devem registrar desaceleração em 2026 em função de mudanças regulatórias, como o fim de créditos fiscais federais.

Energia e infraestrutura

Especialistas alertam que o impacto ambiental dos elétricos depende da origem da eletricidade. Fernando Pinto, diretor de tecnologia e inovação da Escola Politécnica da UFRJ, ressalta que “tudo depende de onde vem a energia que vai carregar a bateria”. A matriz chinesa, por exemplo, ainda é majoritariamente movida a carvão (60,9%), segundo a IEA.

O Brasil tem vantagem relativa: dados da IEA de 2021 indicam que fontes renováveis respondem por quase 45% da demanda primária e usinas hidrelétricas representam cerca de 80% da geração elétrica. A ANEEL informou em 2024 que, dos 200 GW de geração no país, 84,25% são de fontes renováveis, com destaque para hidrelétrica (55%), eólica (14,8%) e biomassa (8,4%).

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Porém, Pinto adverte que a infraestrutura atual não suportaria a conversão imediata de toda a frota a combustão para elétrica e que há necessidade de ampliar geração, distribuição e planejamento da rede.

Carregamento e experiência do usuário

Dados da ABVE apontam mais de 20 mil pontos de recarga públicos e semipúblicos no Brasil. Dos cerca de 700 mil eletrificados em circulação, pouco mais de 218 mil são BEV, o que resultaria em um carregador para cada 11 veículos — próximo da proporção considerada ideal por Marcio Severine (um ponto para 10 a 12 carros), mas com forte concentração nos estados do Sul e Sudeste.

Além da expansão de estações, especialistas destacam a importância da recarga doméstica e mudança de comportamento. Delatore compara o hábito ao do celular: manter a bateria em níveis confortáveis reduziria a dependência de recargas rápidas públicas. Já Fernando Pinto afirma que carregadores ultrarrápidos exigiriam potência e redes que o país ainda não tem em escala.

Produção local e investimentos

Montadoras anunciam investimentos e fábricas no Brasil: a BYD instalou operação em Camaçari (BA) em outubro e opera inicialmente por SKD, com meta de ampliar produção de 150 mil para 300 mil veículos por ano e investimento de R$ 5,5 bilhões. A GWM iniciou atividades em Iracemápolis (SP) em agosto, com capacidade para 50 mil veículos por ano, e projeta produzir até 200 mil por ano em uma segunda unidade em Aracruz (ES); o investimento total estimado é de R$ 10 bilhões em dez anos.

Posicionamento das montadoras

Várias fabricantes detalharam metas e estratégias para o Brasil. Entre os destaques:

  • BMW: metas de redução de emissões até 2030 com referência a 2019; entrega de carregadores portáteis e wallbox aos clientes e colaboração para ampliar pontos de recarga rápida.
  • BYD e Denza: portfólio totalmente eletrificado, fim da produção de veículos só a combustão em 2022, redução estimada de mais de 129 milhões de toneladas de CO₂ até janeiro de 2026; rede de 137 carregadores e plano de instalar 1.000 “Flash Chargers” até 2027, com primeiro equipamento previsto em Brasília.
  • Ford: unidades no Brasil já usam 100% de energia renovável; meta global de energia renovável na manufatura até 2035 e neutralidade até 2050; oferta de modelos eletrificados e planos de lançar a Ranger híbrida plug-in na América do Sul em 2027; não opera rede própria de carregamento no Brasil.
  • Geely: compromisso pelo aumento da sustentabilidade e objetivo de 75% de penetração de veículos de nova energia até 2030; parceria com Mobilize Charge Pass para acesso a mais de 1.000 pontos de recarga.
  • Honda: neutralidade até 2050; aposta em tecnologia híbrida e:HEV flex no Brasil, com investimento de R$ 4,2 bilhões direcionados à introdução do sistema no país; sem planos de investir em pontos de recarga públicos.
  • Mercedes-Benz: programa Ambition 2039 para neutralidade ao longo do ciclo de vida dos veículos; mais de 95% dos automóveis vendidos no Brasil são híbridos ou elétricos; não prevê investimento direto em pontos de recarga no país.
  • Nissan: projeto de testes com o Ariya no Brasil e comercialização do X-Trail e-Power prevista para o fim de 2026.
  • Renault: metas ESG com neutralidade líquida na Europa até 2040 e globalmente até 2050; uso de energia fotovoltaica nas fábricas brasileiras e parceria com Mobilize Charge Pass.
  • Stellantis: plano de investimento de R$ 32 bilhões entre 2025 e 2030, oferta de tecnologias variadas (flex, híbridos-flex, BEV) e parcerias para ampliação da rede de recarga com WEG, GreenV, Zletric e VoltBras; introdução da marca Leapmotor no Brasil.
  • Toyota: abordagem multipathway, com ênfase em híbrido flex no Brasil e aporte de R$ 11,5 bilhões até 2030; sem planos de instalar pontos de recarga públicos por ora.
  • Volvo: meta de zerar emissões dos produtos até 2040; projetos de infraestrutura de recarga para veículos pesados na Europa por meio da joint-venture Millance, sem planos semelhantes anunciados para o Brasil.

Executivos e especialistas ouvidos ressaltam que o avanço dos eletrificados no Brasil combina fatores econômicos, tecnológicos e de comportamento. A expansão da oferta e a instalação de fábricas mostram interesse das montadoras, enquanto desafios de geração, distribuição e experiência de recarga seguem no foco das discussões.

Com informações de Olhardigital