Ex-guitarrista do Iron Maiden critica o documentário sobre os 50 anos: “contaram por cima”

Dennis Stratton aponta cortes rápidos no início da história e diz que a fase com Blaze Bayley foi injustamente apresentada; no Brasil, a exibição ficou por conta da Band

Dennis Stratton, que integrou o Iron Maiden no fim dos anos 1970 e gravou o álbum de estreia, deixou claro que saiu da sessão do documentário com uma sensação de oportunidade perdida. Ele viu o filme em Londres e depois em Belgrado e não poupou críticas ao tratamento dado ao começo da trajetória da banda.

Começo atropelado: o que incomodou Stratton

Para Stratton, a narrativa acelera justamente nas passagens em que seria preciso desacelerar: os primeiros anos, os ensaios, a transformação do som raw para riffs mais trabalhados e harmonias — tudo isso, na visão dele, ganhou poucas imagens e quase nenhum contexto.

O ex-guitarrista destaca que seu desconforto não é pessoal. Ele defende a importância histórica daquele período, quando o Maiden deixou de ser apenas barulho e começou a definir assinaturas que virariam marca registrada. A sensação, segundo Stratton, é de que momentos decisivos receberam cortes rápidos demais.

Blaze Bayley na berlinda

Outro ponto sensível foi a forma como o documentário mostrou a passagem dos anos 1990, quando Blaze Bayley assumiu os vocais. Stratton acha que a montagem recriou uma narrativa em que a entrada de Blaze coincidiria com o declínio da banda — uma leitura simplista que, para ele, coloca um peso injusto sobre o ex-vocalista.

Ele disse ter ficado incomodado com a impressão de culpabilização que o roteiro transmite, como se a trajetória tivesse virado na hora em que Blaze entrou. Na avaliação de Stratton, fatores mais amplos e circunstanciais explicam aquele momento da banda — não um único nome.

Steve Harris e o controle criativo

Do outro lado, o próprio Iron Maiden reconheceu limites na participação. Steve Harris, líder e baixista, admitiu que o grupo optou por não comandar o processo de produção para não atrapalhar a fluidez da edição. O resultado, segundo ele, acabou destoando do que a banda faria se tivesse total controle.

Harris sugeriu que o filme foi concebido como um produto externo sobre a história do Maiden, e não como um registro feito pela banda. Essa distância nas decisões criativas ajuda a entender as escolhas de foco — e também as ausências.

Imagem: Divulgação

Resenha e recepção: fãs à frente, aprofundamento atrás

Críticas profissionais apontam que o documentário privilegia o fã: há muita afetividade, imagens de shows e depoimentos emotivos. Mas esse foco rende uma consequência clara: a ausência de investigação aprofundada sobre a gênese das músicas, os processos de composição e episódios que marcaram as primeiras formações.

Em síntese, o filme funciona bem como celebração e tributo. Falha, porém, em ser uma obra de referência histórica para quem busca entender detalhe por detalhe a construção da carreira da banda.

Onde o público encontrou o documentário

No circuito internacional, a estreia ganhou atenção em festivais e exibições especiais. No Brasil, a transmissão ficou por conta da Band, que levou o longa ao público nacional — alimentando debates entre fãs, ex-integrantes e críticos sobre a versão apresentada da história.

O impacto público e o legado em discussão

A nova peça audiovisual reacendeu uma discussão maior: como contar trajetórias longas sem perder nuance? Para Stratton, a resposta seria dedicar ao começo a mesma atenção que o filme dá aos grandes shows e à mitologia do mascote Eddie. Para os fãs, resta o consolo da celebração.

Seja como documento de fã ou como registro histórico, Burning Ambition provocou reação — e escancarou que, mesmo depois de meio século, a história do Iron Maiden continua a gerar controvérsias e paixões.