Tamer Nafar transforma memórias, muros e religiões em um álbum que atravessa fronteiras

Em turnê pela Europa com o primeiro disco solo, o fundador do DAM junta linguagens — do árabe ao inglês — e empurra o rap palestino para um novo palco

Rapper palestino Tamer Nafar

Em Amsterdã, após shows em sete cidades europeias, Tamer Nafar não fala como quem comemora uma turnê — fala como quem precisa afinar uma história. O repertório do seu primeiro álbum solo, In the Name of the Father, the Imam & John Lennon, é um mapa de deslocamentos: passageiros, familiares, muros e vozes que insistem em atravessar barreiras.

Transmissão: Band | Record

Da periferia de Lydda às batidas que abriram caminho

Crescido numa cidade mista perto de Tel Aviv, Nafar aprendeu cedo a converter observação em verso. Onde muitos viam abandono, ele encontrou ritmo. O hip-hop entrou como escape e manual de tradição oral moderna — letras traduzidas, rimas estudadas, vontade de dizer mais.

Nos anos 1990, a cena local ainda engatinhava. Não havia produtores preparados para o que vinha; havia casamentos, festas e pouco espaço para batidas urbanas. Foi nesse terreno escasso que ele, com os irmãos e amigos, plantou as bases do coletivo DAM, somando referências locais e internacionais até fazer barulho além-fronteiras.

Um álbum feito entre interrupções

In the Name of the Father, the Imam & John Lennon nasceu fragmentado. Projetos, pandemias e crises políticas empurraram o trabalho para frente e para trás. O resultado é um disco costurado por recortes de tempo: samples negociados, faixas reconstruídas, conversas interrompidas que viraram música.

Essa fragmentação virou estética. Em vez de uma narrativa linear, o álbum funciona como um mosaico — cada peça revela um ângulo diferente da experiência palestina dentro e fora das fronteiras.

Vozes que atravessam muros

Na abertura do disco, a presença de um jovem de Gaza aparece como declaração: rostos e palavras projetados sobre concreto que tenta separar. Essa escolha artística reduz distâncias impostas por políticas e burocracias, lembrando que a separação é um desenho artificial, não uma verdade natural.

Ao lado de nomes como Sammy Shiblaq e do emergente MC Abdul, Nafar constrói pontes sonoras. Em estúdio ou em palco, a ideia é a mesma: mostrar que vizinhos divididos por fronteiras administrativas compartilham histórias, medos e sonhos.

Linhas, vigilância e humor ácido

As letras do álbum usam “linhas” como metáfora para tudo o que delimita uma vida: rotas, hastes estéticas, normas e formulários. A vigilância — de aeroportos, de fronteiras, de olhares — aparece frequentemente, desconstruída com ironia e afiada em imagem poética.

Essa capacidade de transformar humilhação em punchline e em verso sério é um dos traços que marcam a trajetória dele: política e cotidiano se entrelaçam sem perder a humanidade que as letras procuram recuperar.

Imagem: Getty

Entre o Alcorão, os Beatles e a conversa que faltou

O título do disco remete à intimidade das viagens de carro com o pai: recitações religiosas lado a lado com discos dos Beatles. Essas idas e vindas formaram um repertório híbrido que aparece no álbum — ora em recortes sonoros, ora em reflexões pessoais.

Mais do que um tributo, o trabalho é uma tentativa de diálogo tardio: músicas que tentam responder ao que ficou por dizer entre pais e filhos, entre gerações que cresceram sob diferentes ordens de mundo.

Performance como encontro

O teatro entrou como ferramenta na construção do show. Movimentação, luz e silêncio passaram a comandar o setlist. Cada cidade traz um instrumento, uma cor, um sopro diferente. Isso transforma o show em laboratório de encontros — inclusive quando Nafar desce do palco para emprestar o microfone ao público.





Em uma apresentação recente em Haifa, a cena foi emblemática: pessoas que vinham sendo silenciadas por anos receberam a chance de falar. Histórias, sonhos e lágrimas passaram pelo microfone — e o artista, mais do que falar, ouviu.

Onde a lírica encontra o desejo de amor

Apesar do peso político, o artista revela uma ambição íntima: compor canções que desnudam relacionamentos. Não baladas comerciais, mas peças que investigam feridas, fidelidades e as pequenas traições cotidianas. É aí, diz ele, que mora a vocação verdadeira — quando a política dá uma trégua e sobra espaço para a fragilidade.

Mas os ciclos de violência frequentemente interrompem essa busca. Ainda assim, a vontade permanece: fazer um disco que seja, antes de tudo, sobre as pessoas que amamos e sobre como cuidamos umas das outras.

Por que importa

O trabalho solo de Tamer Nafar não é apenas mais um lançamento: é um relato em forma de canção que conecta memórias familiares, identidades fragmentadas e urgências políticas. A turnê europeia e a atenção internacional mostram que essas narrativas encontram eco — e que a música continua sendo um meio potente para atravessar muros e reaproximar vizinhos.

In the Name of the Father, the Imam & John Lennon é, acima de tudo, um convite: escutar vozes que resistem, dialogar com o próximo e reconhecer que, por trás das linhas que nos separam, há histórias esperando para ser contadas.