Excesso de peso aos 5 anos tende a persistir até a adolescência, aponta estudo com 41 mil alunos

Pesquisa brasileira revela janela crítica na primeira infância: quando o sobrepeso surge cedo, ele raramente desaparece — e pode até comprometer o crescimento

Um levantamento que acompanhou mais de 41 mil estudantes entre 5 e 18 anos encontrou um padrão claro: o sobrepeso iniciado na infância costuma se manter ao longo dos anos escolares. O acompanhamento, realizado entre 2013 e 2020 por pesquisadores da Unifesp em parceria com instituições do Chile e dos EUA, mostra que a maior parte das crianças que ganham peso acima do recomendado dificilmente “cresce e emagrece” sozinha.

Na subamostra mais detalhada, de cerca de 11,5 mil alunos, a maioria manteve peso dentro do esperado, mas uma parcela expressiva evoluiu para sobrepeso ou obesidade ao longo do tempo — um sinal de que a intervenção precoce faz diferença.

Os dados também apontam um padrão de início precoce: sinais de aumento do índice de massa corporal aparecem já nos primeiros anos da vida escolar, com a maior prevalência de obesidade ocorrendo entre crianças de 5 a 10 anos.

Como o problema impacta altura, saúde e futuro

O quadro vai além da balança. Embora a estatura média tenha crescido, pesquisadores notaram que parte dos adolescentes não alcançou o potencial de altura esperado. Nos meninos, a estatura começou a ficar abaixo das referências internacionais por volta dos 9 anos; nas meninas, esse desvio apareceu por volta dos 13.

O motivo é multifatorial. Dietas ricas em calorias, mas pobres em nutrientes essenciais, podem acelerar a maturação óssea e antecipar a puberdade — um processo que encurta a janela de crescimento e reduz a estatura final. Em outras palavras: ganhar peso cedo pode acelerar etapas do desenvolvimento que, no fim, limitam o crescimento.

Fatores que antecedem o nascimento também contam. Ganho excessivo de peso materno, ausência de aleitamento materno e padrões inadequados de introdução alimentar aumentam a vulnerabilidade da criança ao acúmulo de gordura.

O cenário cotidiano amplifica o risco. Menos brincadeiras ao ar livre, mais tempo em frente a telas, consumo frequente de ultraprocessados e bebidas açucaradas, e sono insuficiente formam uma combinação que favorece o ganho de peso e reduz a chance de reversão espontânea.

Conheça sem controle, obesidade na infância tende a se manter na adolescência

Imagem: Body image of a fat boy who weighs more than usual

Além do impacto no crescimento, a manutenção do excesso de peso desde a infância eleva o risco futuro de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações hepáticas e problemas osteomusculares. Mesmo que a relação peso-altura melhore mais tarde, ter passado por obesidade infantil aumenta a probabilidade dessas complicações.

Escola e família surgem como peças-chave. A rede escolar pode monitorar o crescimento, incentivar atividade física e educação alimentar; a família, por sua vez, modela hábitos com escolhas diárias — das refeições ao uso de telas. O acompanhamento pediátrico contínuo permite identificar padrões de risco antes que o problema se consolide.

O estudo reforça uma mensagem simples e urgente: quanto mais cedo o excesso de peso for identificado e tratado, maiores as chances de evitar que ele persista e comprometa saúde e desenvolvimento no longo prazo.

Fonte: estudo publicado no British Journal of Nutrition; pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com Boston College, Universidad Autónoma de Chile e Universidade Federal do ABC. Reportagem por Léo Marques, Agência Einstein.