31/03/2027 — Raízen destrava a maior recuperação extrajudicial do país com adesão de 75,45% dos credores

Plano de R$64,7 bilhões avança com capital da Shell, troca dívida por ações e divisão da companhia em duas empresas

Com 75,45% dos credores alinhados, a Raízen conseguiu aprovar o principal acordo para reestruturar R$64,7 bilhões em passivos — a maior operação desse tipo no Brasil. O resultado supera folgadamente o mínimo legal e viabiliza a etapa seguinte: a homologação judicial, que abrirá um prazo de 30 dias para eventuais contestações.

O desfecho retoma a trajetória de negociação que vinha em curso dentro do prazo regulamentar de 90 dias e coloca o grupo diante de um novo desenho operacional e societário. Agora, resta transformar o acerto formal em eficácia jurídica para vincular toda a base credora, inclusive os que não aderiram.

Termos-chave do acordo e efeitos imediatos

O plano assenta em três pilares principais. O primeiro é um aporte direto de R$3,5 bilhões pela Shell, com possibilidade de outros R$500 milhões provenientes da holding Aguassanta, ligada a Rubens Ometto — aporte condicionado, segundo documentos apresentados.

O segundo pilar prevê a conversão de 45% da dívida em participação acionária, equivalente a cerca de R$29 bilhões. Os credores que aceitarem essa via receberão Units a R$0,50 cada, cada Unit formada por uma ação ordinária e uma preferencial; o preço de referência por ação foi fixado em R$0,25.

Os 55% restantes serão transformados em dívida nova — as chamadas Novas Notas RSA e RESA — distribuídas entre as duas frentes do negócio: 37,4% na nova Raízen Combustíveis e 17,6% na Raízen Energia, a unidade agrícola.

As condições financeiras foram detalhadas: para combustíveis, a dívida nova terá remuneração de CDI + 275 pontos-base em reais ou 8,5% ao ano em dólar, com vencimentos escalonados para 2032 e 2034. A vertical agrícola terá CDI + 125 pontos-base ou 7% em dólar, com prazos até 2033 e 2035.

Além disso, a operação agrícola terá alívio de caixa nos primeiros três anos, com a possibilidade de capitalizar juros em vez de pagá-los imediatamente — medida com custo adicional de 200 pontos-base sobre a taxa contratada.

Haverá alternativas para credores com diferentes perfis: um título de prazo muito longo, com vencimento em 2047 e desconto de 80%, e uma janela de pagamento à vista limitada a credores de menor monta, com teto agregado de aproximadamente R$150 milhões.

Uma transformação estrutural acompanha a reordenação financeira: a Raízen será segregada em duas empresas. A operação de etanol, açúcar e bioenergia (ESB) ficará sob a Raízen Energia; a distribuição de combustíveis, com a bandeira Shell, 6,8 mil postos e a unidade de lubrificantes, formará a Raízen Combustíveis. A operação na Argentina já foi vendida por US$1,4 bilhão, ajustando o escopo do negócio agrícola.

Com o novo desenho, a alavancagem projetada cai para níveis distintos: cerca de 4,8 vezes Ebitda para combustíveis e 2,2 vezes para energia. O plano também prevê a busca ativa por um investidor estratégico para a companhia de distribuição, em processo competitivo que pode incluir oferta secundária de ações.

A governança será redesenhada. O conselho de administração terá sete assentos: quatro indicados pelos credores aderentes — incluindo a presidência — e três pelos acionistas que aportarem capital. A Shell manterá ao menos um assento enquanto vigorar o contrato de licença da marca.

Para conduzir a reestruturação será criado o cargo de Chief Restructuring Officer (CRO), que ficará sob a liderança de Lorival Luz, atual diretor financeiro. O CRO terá supervisão direta de um executivo indicado pelos credores (Creditor Restructuring Advisory Officer) e de um comitê de cinco membros também indicado por eles.





O acordo de licenciamento da marca Shell está previsto para renovação por 15 anos, renovável por mais 15, com novo regime de royalties que passa a abarcar veículos elétricos e o varejo não-combustível dos postos. A remuneração da licença terá piso e teto corrigidos trimestralmente por IPCA + 3%, substituindo a referência anterior.

O fechamento da operação depende de três condições críticas: a formalização de um acordo tributário federal, a readequação das obrigações de reembolso relacionadas a contingências anteriores envolvendo Cosan e Shell, e a definição final do plano de desinvestimentos. O cronograma interno aponta para conclusão da operação até 31 de março de 2027 e segregação dos negócios até o fim do ano.

Se ratificado pela Justiça, o plano altera radicalmente o mapa da companhia e redesenha relações entre credores, acionistas e parceiros — um passo decisivo para estabilizar caixa, preservar a rede de postos e dar novo fôlego às unidades agrícolas e de distribuição.