O cientista da computação Bruno Alano, que integrou a OpenAI entre 2016 e 2018, afirmou em entrevista ao Olhar Digital que o ChatGPT “foi um acidente”. Alano foi o primeiro pesquisador sul-americano a trabalhar na equipe da desenvolvedora, em São Francisco, e atuou no programa SOCML, dedicado a redes recorrentes e modelos generativos de texto — tecnologias que serviram de base para o chatbot.
Além da passagem pela OpenAI, Alano é membro fundador da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), liderou projetos de IA em plataformas de grande escala como o Jusbrasil e hoje é cofundador e CTO da Avra, startup que desenvolve modelos proprietários de IA para inteligência de crédito.
Por que “acidente”
Alano explicou que o “acidente” ocorreu em dois níveis: pesquisa e produto. Do ponto de vista científico, ele afirma que métricas tradicionais não eram capazes de medir o valor prático de modelos generativos e que o uso público revelou aplicações imprevistas, em áreas sem benchmarks anteriores. Em relação ao produto, descreveu o lançamento inicial como um protótipo simples — uma caixa de texto sem camadas maduras de governança ou ética — e destacou que a tecnologia já existia em termos técnicos, mas ninguém previa que geraria tanto valor prático ao público.
Na avaliação do pesquisador, a origem e a filosofia de cada empresa de IA orientam suas estratégias: enquanto a OpenAI teria uma postura horizontal e experimental, a Anthropic foca em mercados corporativos e em inovações de produto, especialmente para engenharia de software. Alano também citou o Google, que aposta na integração com seu ecossistema de dados, e a Apple, que tende a priorizar privacidade e execução on-device.
Infraestrutura e mercado
Sobre o mercado, Alano ressaltou que o crescimento levou a uma forte valorização de empresas de infraestrutura, citando a Nvidia como grande beneficiada. Segundo ele, cerca de 80% do treinamento de modelos ainda ocorre em chips da Nvidia, devido à otimização do ecossistema PyTorch, enquanto o restante utiliza TPUs do Google. Alano observou, porém, que a Nvidia tem perdido espaço na inferência cotidiana, com concorrentes como Groq, xAI e otimizações do Google avançando nesse segmento.
O cientista afirmou que o setor opera sob lógica de “winners take most”, com barreiras altas a entrantes, e listou um “top 5” provável no universo dos LLMs: OpenAI, Anthropic, Google, Meta e um quinto player em aberto, possivelmente a ByteDance. Ele acrescentou que há espaço para modelos de domínio específico, usados por empresas como a Avra.
AGI, empregos e futuro
Alano disse ser cético quanto à chegada próxima de uma inteligência artificial geral (AGI), estimando que, mesmo sem considerar senciência, isso poderia demorar 50 ou 60 anos e não ocorrer com as arquiteturas atuais. Ele criticou o discurso sobre AGI como impulsionado por marketing e por necessidade de justificar altos investimentos em infraestrutura.
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Quanto ao impacto no mercado de trabalho, afirmou que tarefas fáceis de validar, como programação e contabilidade, estão mais vulneráveis à automação, enquanto atividades intangíveis, como design, são mais difíceis de substituir. A criação da associação Bria teria sido motivada por preocupações sobre os efeitos socioeconômicos da IA.
Sobre os próximos anos, Alano previu que a discussão deixará de ser apenas sobre modelos de linguagem e se expandirá para diferentes tipos de IA (imagem, áudio, classificação) e que o uso de IA no core business das empresas deve crescer — hoje, segundo ele, menos de 10% das empresas empregam IA em atividades centrais, conforme pesquisa de Stanford citada na entrevista.
Olhardigital conduziu a entrevista com perguntas e respostas editadas para facilitar a leitura.
Com informações de Olhardigital

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6