Executivos de empresas de inteligência artificial participaram na cúpula do G7 em Évian-les-Bains entre 15 e 17 de junho de 2026 como interlocutores com status semelhante ao de chefes de Estado, segundo relatos da reunião. A presença de figuras como Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Demis Hassabis (Google DeepMind) durante o almoço de trabalho ilustrou a transformação da tecnologia privada em elemento-chave da soberania nacional.

O episódio ocorreu dias após o governo dos Estados Unidos limitar o acesso internacional aos modelos Fable 5 e Mythos 5, da Anthropic, justificando a medida por razões de segurança nacional. Washington alegou que os modelos tinham capacidades sem precedentes de identificar e explorar vulnerabilidades cibernéticas, o que levou à aplicação de controles de exportação tradicionalmente reservados a equipamentos militares.

Tecnologia, infraestrutura e soberania

Especialistas e think tanks apontaram que a disputa pela IA deixou de ser apenas sobre software para se transformar numa competição material por data centers, energia e cabos submarinos. O think tank alemão DGAP indicou que o domínio da infraestrutura digital voltou a ser o centro da geopolítica mundial, e que países dependentes de nuvens e serviços estrangeiros ficam em posição de vulnerabilidade estratégica.

Na prática, a centralidade da infraestrutura faz com que corporações que controlam modelos avançados e capacidade computacional passem a exercer influência política significativa. Relatos da agência Axios destacaram que, em Évian-les-Bains, ministros e assessores disputaram a atenção dos CEOs, que participaram de reuniões bilaterais e foram tratados como pares diplomáticos.

Impactos econômicos e militares

Agências como Reuters registraram o alerta de lideranças europeias sobre o risco de obsolescência diante do monopólio tecnológico norte-americano, já que grande parte da nuvem, dos chips e dos modelos fundacionais permanece sob controle de empresas dos EUA. Executivos do setor, como Aidan Gomez, da Cohere, publicaram textos defendendo que países invistam em uma “IA soberana” ou correm o risco de se tornar dependentes de provedores estrangeiros.

A decisão americana de impor restrições aos modelos da Anthropic foi interpretada por observadores como um marco que trata software comercial de ponta como ativo estratégico de defesa, e não apenas produto de mercado. O bloqueio serviu, conforme reportagens, como um choque de realidade para aliados que acreditavam no acesso garantido às ferramentas americanas.

Regulação, influência e acordos

No G7, o debate regulatório passou a incluir negociações sobre quem terá acesso preferencial às tecnologias restritas. Uma proposta em discussão prevê a criação de um mecanismo de “Parceiros Confiáveis”, um tipo de credencial diplomática que permitiria a nações alinhadas contornar restrições de exportação para acessar modelos avançados.

CEOs de IA sentados como pares de líderes no G7 após bloqueio de modelos pelos EUA

Imagem: Divulgação

O confronto entre a estratégia dos EUA de consolidar sua tecnologia como “padrão de ouro global” e a tentativa da União Europeia de usar regras como o AI Act para proteger seu mercado também esteve presente nas discussões. Analistas apontaram que impor exigências regulatórias sem controle sobre a infraestrutura física pode reduzir a capacidade de ação dos países europeus.

Posição do Brasil

O Brasil participou como convidado da cúpula e assinou três dos oito documentos temáticos divulgados no encontro. Segundo a avaliação oficial, a maior parte dos textos finais foi diluída para evitar o veto do presidente dos EUA, Donald Trump. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a concentração de mercado das big techs e alertou que países em desenvolvimento têm papel limitado como fornecedores de insumos e dados para modelos estrangeiros.

A única declaração brasileira diretamente relacionada ao ecossistema tecnológico foi a de proteção de menores no ambiente digital, que exige verificação de idade e configurações seguras por padrão para provedores, com atenção a riscos de IA conversacional e deepfakes de abuso infantil. O país também optou por não assinar a declaração sobre minerais críticos, proposta que visava criar uma aliança ocidental para reduzir a dependência da China no fornecimento de terras raras e componentes até 2030. O governo brasileiro rejeitou o texto por considerá-lo extrativista, defendendo o direito de agregar valor às cadeias produtivas locais.

O evento no sul da França deixou claro que o controle sobre modelos de IA, chips e capacidade computacional se consolidou como um novo vetor de poder na geopolítica contemporânea, e que o acesso a tecnologias de ponta está sendo negociado tanto por vias diplomáticas quanto por medidas de segurança nacional.

Com informações de Olhardigital