O fenômeno El Niño — cujo nome em espanhol significa “O Menino” — vem aquecendo as águas do Pacífico Equatorial e alterando padrões climáticos globais. No Brasil, essa anomalia já provoca uma divisão meteorológica marcada: o Norte e o Nordeste enfrentam seca severa e aumento do risco de incêndios florestais, enquanto o Sul se prepara para chuvas intensas, enchentes e ciclones.

Como o El Niño afeta o agro e os preços dos alimentos

A elevação da temperatura do Pacífico intensifica eventos climáticos extremos, com impactos diretos na produção agrícola, no abastecimento e nos preços. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a seca nas regiões Norte e Nordeste reduz disponibilidade de água para pastagens e compromete a pecuária leiteira, além de causar perdas em grandes lavouras de grãos e em frutas típicas dessas áreas. Já o excesso de umidade no Sul e no Sudeste favorece doenças nas plantas, enquanto ondas de calor prejudicam o desenvolvimento de culturas como o café e danificam lavouras de hortaliças antes da colheita.

O efeito combinado dessas quebras de safra e do aumento de custos tende a reduzir a oferta de alimentos nos centros de distribuição. Com demanda estável, essa queda na produção eleva os preços ao consumidor, pressionando a inflação dos alimentos.

Risco de um “Super El Niño” e histórico de perdas

O temor entre meteorologistas é a consolidação de um “Super El Niño”, definido pela comunidade científica quando o aquecimento do Pacífico Equatorial supera 2℃ acima da média histórica. Eventos dessa intensidade ocorrem raramente, mas ampliam drasticamente riscos de desastres climáticos. O país já sofreu impactos importantes em episódios anteriores: entre 2015 e 2016 houve perdas significativas na produção agrícola, com redução de produtividade em áreas como o Matopiba — formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — atribuída à seca daquele período, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Desde então, avaliam especialistas, a gestão de risco no agronegócio brasileiro avançou, com maior atenção a instrumentos financeiros e diretrizes voltadas para proteger produtores contra choques climáticos, em iniciativas coordenadas por entidades do setor e pelo Ministério da Agricultura.

Medidas de adaptação e tecnologia no campo

Produtores têm adotado medidas práticas de adaptação. No oeste da Bahia, por exemplo, a irrigação sustentável associada ao monitoramento de aquíferos e ao uso de sistemas automatizados para aplicar água tem permitido até duas safras anuais sem esgotar os recursos hídricos locais. No Centro-Oeste, práticas como plantio direto e rotação de culturas — alternando soja com arroz de sequeiro — contribuem para preservar a umidade do solo e proteger as raízes durante veranicos.

El Niño bagunça o clima e representa risco para a produção agrícola no Brasil

Imagem: Imagem gerada por IA/Gemini

Além do manejo, o setor tem recorrido ao seguro agrícola para reduzir a volatilidade de renda quando as safras são perdidas, e a investimentos em reservatórios comunitários para garantir abastecimento em períodos de estiagem.

Tecnologia também é citada como ferramenta-chave. Sistemas de inteligência artificial desenvolvidos pela Embrapa combinam dados de satélite e séries históricas para prever janelas de plantio e identificar indícios de doenças e estresse hídrico antes que eles se manifestem visualmente. Projetos como o Semear Digital visam democratizar essas soluções para a agricultura familiar. Drones, sensores e maquinário automatizado permitem aplicações mais precisas de água e defensivos, reduzindo custos e impactos ambientais.

Para especialistas do setor, a resposta mais eficiente às oscilações provocadas pelo El Niño passa pela integração entre tecnologia, planejamento financeiro e práticas sustentáveis no campo.

Com informações de Olhardigital