O acúmulo de notificações, mensagens e ferramentas digitais no trabalho tem levado profissionais a um estado descrito por especialistas como tecnoestresse, que compromete o bem‑estar, a satisfação e o engajamento. A constatação aparece em uma revisão de pesquisas de 2026 sobre estresse relacionado à tecnologia no ambiente profissional, que associa a sobrecarga tecnológica a prejuízos à saúde mental dos funcionários.

Na prática cotidiana, a sensação de sobrecarga é ilustrada por exemplos concretos: uma caixa de entrada com 628 e‑mails não lidos, sete mensagens no Signal, notificações no Telegram, dezenas de mensagens de texto e uma pilha de comentários em documentos do Google vinculados a outro projeto. Soma‑se a isso o uso rotineiro de aplicativos como Asana, Slack e Gusto, além de autenticadores de dois fatores que multiplicam alertas sonoros e visuais.

O QUE É O TECNOESTRESSE

Especialistas definem o tecnoestresse como um conjunto de problemas induzidos pelo uso intenso de tecnologia, que inclui interrupções constantes e a chamada “fadiga do Zoom”. Stefan Tam, professor de tecnologias da informação na escola de negócios HEC Montreal, aponta que o fenômeno envolve a alternância de tarefas — diferente da multitarefa, já demonstrada como ineficaz — e que essa alternância causa cansaço e redução da capacidade de concentração.

Melissa Perry, reitora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade George Mason, observa que a sensação de não conseguir acompanhar as demandas é comum entre quem passa de seis a 12 horas por dia em frente a telas.

QUAIS SÃO OS EFEITOS?

Estudos citados na revisão apontam efeitos mensuráveis. Uma pesquisa de 2024 com 142 trabalhadores identificou que o medo de perder informações (FOMO) representa um risco para a saúde mental, enquanto a sobrecarga de informações aumenta a exaustão. Outra investigação de 2024 sobre interrupções no trabalho de escritório indicou que mensagens instantâneas e e‑mails chegam a consumir mais de duas horas da jornada de trabalho.

Além do impacto imediato, especialistas alertam para consequências a longo prazo: exposição contínua a alertas e distrações pode ensinar o cérebro a reagir constantemente a estímulos digitais, reduzindo a capacidade de foco, prejudicando a empatia e afetando relacionamentos sociais. Alane Daugherty, professora focada em bem‑estar na Universidade Politécnica Estadual da Califórnia, afirma que padrões de uso repetidos podem gerar dependência tanto das recompensas positivas (dopamina) quanto do próprio estresse.

A IA PODE NOS SALVAR DO TECNOESTRESSE?

A inteligência artificial é apontada como capaz de assumir tarefas e reduzir notificações, mas os especialistas alertam que integrar a IA ao trabalho também adiciona mais uma camada de tecnologia — e preocupações sobre segurança do emprego podem intensificar o estresse.

Imagem: Divulgação

Medidas sugeridas para mitigar a sobrecarga começam pela gestão: líderes devem avaliar com cuidado as demandas que fazem aos funcionários e oferecer tempo e suporte adequados. Entre estratégias individuais recomendadas estão reapreciação emocional (enxergar o aprendizado de novas ferramentas como oportunidade), limitar tempo dedicado a cada plataforma silenciando outras notificações, pausas periódicas de 15 minutos sem telas e interações presenciais quando possível.

Práticas simples de autocuidado também constam das orientações: exercícios respiratórios (com expiração mais longa que a inspiração), relaxamento dos músculos faciais e alongamentos leves para reduzir tensão ocular.

Ao fim, especialistas ressaltam que é preciso “reiniciar o sistema” para evitar que a rotina digital mantenha um estado contínuo de aceleração e alerta.

Com informações de Fastcompanybrasil