Pesquisadores da Universidade de Edimburgo (Escócia) elaboraram um catálogo de vírus com o objetivo de apontar quais agentes têm maior potencial para desencadear futuras emergências sanitárias globais. Segundo os autores, a ferramenta pode agilizar a avaliação de risco de novos vírus detectados em pacientes e ajudar a prever características do provável “vírus da doença X”.

Descobertas e padrão histórico

O estudo lembra que, em um ano típico, são identificados entre dois e três vírus nunca antes observados em humanos, padrão que se mantém relativamente constante desde a década de 1960. Embora milhares de espécies de vírus de RNA já tenham sido descritas — e existam possivelmente milhões na natureza — apenas 239 desse grupo são reconhecidas por infectar pessoas.

Critérios do catálogo

A equipe compilou a lista a partir desse universo de vírus conhecidos em humanos, priorizando aqueles que representam maior ameaça. Os autores destacam que as maiores pandemias recentes foram provocadas sobretudo por vírus com genoma de RNA, em vez de DNA, e por isso esse tipo recebeu atenção especial no levantamento.

Transmissão entre pessoas é determinante

Os pesquisadores salientam que gravidade clínica sozinha não basta para que um agente provoque uma pandemia. O fator decisivo é a capacidade de transmissão sustentada entre seres humanos — por contato direto, gotículas e aerossóis, sangue, fezes ou vetores como mosquitos e carrapatos. No catálogo, cerca de dois terços dos vírus listados apresentam baixa probabilidade de transmissão de pessoa para pessoa, sendo classificados como zoonóticos: normalmente passam de animais a humanos, mas não mantêm circulação entre pessoas. A raiva é citada como exemplo desse padrão.

Ameaças já adaptadas e surtos limitados

O maior risco, segundo os autores, provém de vírus que já se espalham entre humanos, porque eles podem aumentar sua transmissibilidade ao longo do tempo — como observou-se com variantes do SARS-CoV-2. Também foram incluídos agentes capazes de transmitir entre pessoas que até agora causaram apenas surtos limitados, situação em que o número R se manteve baixo e as cadeias de transmissão cessaram naturalmente. O Ebola Zaire, que em 2014 provocou uma grande epidemia na África Ocidental ao alcançar centros urbanos, é citado como exemplo de mudança nesse padrão.

Casos que chamaram atenção

Entre os vírus originalmente priorizados pelo catálogo estão o Ebola Zaire e os arbovírus Chikungunya, Zika e Oropouche, além do mpox, de genoma DNA — todos responsáveis por grandes epidemias. O levantamento também destaca casos recentes que mereceram atenção, como o hantavírus Andes, ligado a um surto em um navio de cruzeiro, e o Bundibugyo ebolavirus, em disseminação na África Central.

Catálogo identifica vírus com maior risco de causar próxima pandemia no Brasil

Imagem: Divulgação

Previsões e detecção precoce

Os autores lembram que uma análise publicada em 2019 pela mesma equipe mostrou que vírus altamente transmissíveis tendem a ser parentes próximos de outros que já circulam em humanos, ainda que se originem separadamente em reservatórios animais — descrição que se aplicou ao SARS-CoV-2, relacionado ao coronavírus da SARS e possivelmente derivado de morcegos. A Organização Mundial da Saúde já havia indicado, em 2019, um coronavírus similar ao da SARS como candidato à chamada “doença X”, o que contribuiu para a rápida reação da comunidade científica ao surgimento da Covid-19.

O estudo também enfatiza que identificar novos vírus rapidamente pode reduzir mortes e impactos sociais e econômicos: tanto o hantavírus Andes quanto o Bundibugyo ebolavirus circularam por semanas antes de serem detectados, assim como o SARS-CoV-2 no início da pandemia.

Com informações de Olhardigital