Um executivo brasileiro demitido por uma empresa na China relatou que, após a comunicação formal do desligamento, recebeu como última orientação ir almoçar com sua equipe naquele mesmo dia. O episódio ilustra um protocolo local em que o vínculo pessoal permanece mesmo após o fim do contrato de trabalho.
Essa cena surpreendeu o autor durante uma viagem ao país porque contrasta com a imagem comum do ambiente de trabalho chinês: rigoroso, orientado por metas e marcado por jornadas intensas — o chamado 996, das 9h às 21h, seis dias por semana, que se tornou símbolo da pressão laboral no país.
A disciplina organizacional na China se manifesta também na capacidade do Estado e das empresas em desdobrar planos, como os planos quinquenais nacionais, em metas precisas que chegam até gestões locais e exigem cumprimento em cada nível. Historicamente, esse horizonte de longo prazo deu resultado: entre 1978 e 2018, a renda per capita chinesa cresceu cerca de 25 vezes e aproximadamente 800 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema — equivalente a três quartos da redução global da pobreza no período.
Ao mesmo tempo, esses ganhos têm custo. O regime 996 foi associado a esgotamento e, em 2021, foi declarado ilegal pela justiça chinesa. A máquina de metas também pode gerar maquiagem de indicadores quando a pressão aumenta.
O interesse do jornalista não foi idealizar essas práticas, mas investigar como se mantêm as relações humanas dentro de um sistema tão rigoroso. A conclusão foi que, além de regras e disciplina, existe uma obsessão por relacionamento social — representada pela noção de guanxi — uma rede de reciprocidade e confiança que sustenta negócios, carreiras e mercados.
Na prática, essa prioridade por vínculos aparece em atitudes cotidianas: um chefe que frequenta happy hour com a equipe cumpre um papel funcional; almoços coletivos integram a rotina de trabalho; e a orientação para que um demitido participe do almoço segue um código que separa a ruptura contratual do rompimento das relações pessoais.
Relacionamento e disciplina
O relato leva a uma comparação com o Brasil, onde a autoimagem valoriza a sociabilidade e a proximidade. Segundo o texto, aqui esse traço costuma aparecer como calor humano e “jeitinho”, raramente sendo estruturado com intenção para gerar resultados. No contraste chinês, o relacionamento funciona como infraestrutura: confiança é tratada como um mecanismo que permite extrair produtividade sem que a engrenagem se desfaça.
Imagem: Ap
Com a automação e a incorporação crescente de inteligência artificial nas operações, argumenta-se que o espaço humano passa a ser dominado por decisão, julgamento e relacionamento. Assim, a confiança entre pessoas tenderia a assumir papel estratégico, especialmente quando processos e execução podem ser replicados por software.
Seguindo essa lógica, os chineses teriam organizado a confiança como um elemento sistemático de gestão; no Brasil, a matéria-prima relacional existe, mas, segundo a reportagem, falta intenção para transformá-la em vantagem competitiva sustentada.
O tema fica em aberto para práticas empresariais e políticas de gestão à medida que sociedades confrontam escolhas sobre disciplina, tecnologia e o papel das relações humanas no trabalho.
Com informações de Fastcompanybrasil

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6