Uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta terça-feira (22) e deixa a indústria calçadista do Ceará entre os setores mais expostos às novas barreiras comerciais dos Estados Unidos. Apesar de uma lista de exceções ter poupado mais de 2,1 mil produtos, os calçados permaneceram sujeitos à cobrança, reacendendo preocupações sobre competitividade, empregos e necessidade de diversificação de mercados no estado.

A tarifa adicional foi adotada pelo governo norte-americano após investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O processo avaliou questões relativas ao comércio bilateral, propriedade intelectual, comércio digital e acesso ao mercado brasileiro.

O mecanismo prevê uma regra de transição: mercadorias embarcadas antes da entrada em vigor da medida ficam isentas da sobretaxa desde que cheguem aos Estados Unidos até 29 de julho, o que reduz o impacto imediato sobre remessas já contratadas.

Impacto para o Ceará

O Ceará é o maior exportador brasileiro de calçados em volume de pares e vê a manutenção dos calçados na lista tarifada como um ponto de vulnerabilidade. Em 2025, os Estados Unidos corresponderam a cerca de 46% das exportações do estado, totalizando aproximadamente US$ 1,039 bilhão, segundo o Ipece.

No primeiro trimestre de 2026, o Ceará exportou 8,15 milhões de pares de calçados, que geraram cerca de US$ 42 milhões, indicador que confirma a liderança estadual em volume, segundo a Abicalçados. Embora itens siderúrgicos liderem em valor, a cadeia do calçado é relevante para emprego e renda na região.

Os consultores do setor destacam que a sobretaxa não se traduz necessariamente em perda integral de receita: parte dos custos pode ser absorvida pelos exportadores, repassada a importadores ou consumidores finais, ou resultar em queda nas encomendas. Ainda assim, a pressão tende a reduzir a competitividade frente a concorrentes que continuam a ter acesso mais favorável ao mercado americano.

Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da FIEC, alerta que a medida coloca o Brasil em desvantagem frente a outros fornecedores e que o calçado cearense está entre os ramos mais diretamente atingidos, tornando essencial ampliar mercados e manter diálogo comercial com os EUA.

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Também segundo a Abicalçados, o presidente-executivo Haroldo Ferreira avalia que a tarifa compromete a competitividade do produto brasileiro no mercado norte-americano e pode inviabilizar operações que vinham sendo retomadas ao longo do ano.

Contexto e caminhos

O endurecimento da política comercial americana já era monitorado desde a primeira rodada de tarifas em 2025, e empresas como a Grendene — com unidades em Sobral, Fortaleza e Crato — acompanhavam os possíveis efeitos sobre suas exportações. A preservação de parte da pauta exportadora e a exclusão de mais de duas mil posições mostraram que decisões do USTR também consideraram riscos de desabastecimento e disponibilidade de fornecedores alternativos.

Para reduzir vulnerabilidades, entidades e empresas destacam a importância de diversificar destinos de exportação, valorizar produtos e fortalecer infraestrutura logística, como o Complexo do Pecém, além de negociar acordos comerciais e articular ações conjuntas entre setor privado e governo.

O novo tarifário americano, portanto, altera regras de acesso ao mercado dos EUA e reforça o desafio para a indústria calçadista cearense: manter competitividade interna enquanto amplia presença em outros mercados.

Com informações de Portalin