Uma análise das primeiras amostras trazidas do lado oculto da Lua indica que a magnetosfera terrestre modifica a velocidade do vento solar que atinge a superfície lunar, resultando em diferenças claras entre os dois hemisférios do satélite.

Quem, o que e onde

O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, foi conduzido por cientistas do Instituto de Geologia e Geofísica (IGG) da Academia Chinesa de Ciências (CAS) a partir do regolito coletado pela missão chinesa Chang’e-6 na bacia Polo Sul-Aitken, no lado oculto da Lua. A equipe incluiu o pós-doutorando Zhang Xuhang e o professor He Huaiyu, ambos do IGG, além de pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da China e do grupo responsável pela carga útil de voláteis da missão Chang’e-7.

Quando e o material analisado

As amostras retornadas com a Chang’e-6 totalizaram 1,935 grama de regolito e possibilitaram, pela primeira vez, comparação direta entre o lado voltado para a Terra e o lado oposto em relação à incorporação de partículas do vento solar no solo lunar.

Como foi feito o estudo

Os pesquisadores examinaram a composição isotópica de gases nobres retidos no regolito — entre eles hélio, neônio, argônio, criptônio e xenônio — que funcionam como marcadores químicos do bombardeio solar ao longo de bilhões de anos. Em experimentos de aquecimento gradual em laboratório, foram avaliadas as temperaturas de liberação desses gases e as razões isotópicas observadas.

Resultados principais

As amostras do lado oculto exibiram uma razão média 20Ne/22Ne igual a 11,34 ± 0,22, valor inferior ao registrado em todas as amostras previamente coletadas no lado próximo da Lua. Esse padrão indica um fracionamento isotópico mais intenso no lado oposto, com enriquecimento relativo do isótopo mais pesado.

No caso do xenônio derivado do vento solar, as amostras da Chang’e-6 liberaram o gás em um único pico ligado a temperaturas elevadas. Em contraste, as amostras da Chang’e-5, obtidas no lado próximo, apresentaram dois picos de liberação, com liberação significativa em faixas de baixa e alta temperatura. Os autores interpretam esses indícios como sinal de que íons do vento solar penetraram mais profundamente no regolito do lado oculto, refletindo exposição a partículas de maior energia.

Imagem: Divulgação

Por que ocorre a diferença

Os cientistas atribuem as variações ao chamado efeito de “controle de velocidade” exercido pela magnetosfera da Terra. Ao atravessar a magnetobainha durante sua órbita, o vento solar sofre desaceleração — de cerca de 400 quilômetros por segundo para aproximadamente 200 quilômetros por segundo — e atinge de forma mais lenta o lado da Lua voltado para a Terra, reduzindo a profundidade de implantação das partículas. Estima-se que cerca de 25% da exposição ao vento solar registrada no local de pouso da Chang’e-5 tenha sido influenciada por esse vento desacelerado; o local da Chang’e-6 não teria recebido essa proteção.

Os autores afirmam que os gases nobres retidos no regolito funcionam como registros das interações entre a magnetosfera terrestre e o vento solar ao longo do tempo e que, combinados com registros paleomagnéticos, esses vestígios poderão ajudar a reconstruir a evolução da magnetosfera da Terra.

Com informações de Olhardigital