Um movimento entre jovens que priorizam redução de distrações tem levado muitos a abandonar os smartphones modernos em favor dos chamados dumbphones, aparelhos básicos voltados principalmente para chamadas, mensagens e funções essenciais.

O fenômeno surge em meio a preocupações com o uso excessivo do celular, o aumento do tempo nas redes sociais e a sensação de disponibilidade contínua. Mais do que uma reminiscência dos celulares flip dos anos 2000, a migração tem sido apresentada por usuários como uma tentativa de recuperar controle sobre a atenção pessoal.

O que são dumbphones

Além do tempo de tela

O psicólogo clínico e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Paulo Cesar Porto Martins, alerta que avaliar o uso do celular apenas pela quantidade de horas é insuficiente. Ele destaca que a finalidade e a qualidade do uso determinam impactos diferentes: duas horas dedicadas a estudo, trabalho ou conversas significativas não se comparam a duas horas de atenção fragmentada entre vídeos curtos, notificações e comparações nas redes sociais.

Segundo o especialista, sinais de uso problemático incluem perda de controle sobre o tempo de tela, tentativas frustradas de reduzir o uso, prejuízo do sono, abandono de outras atividades e sofrimento ao ficar desconectado.

Por que a troca pode ajudar

Martins afirma que mudar para um dumbphone atua como uma intervenção no ambiente: ao remover gatilhos e tornar comportamentos impulsivos menos acessíveis, a estratégia diminui a dependência da força de vontade pura. Ele compara a medida à decisão de não manter doces em casa para reduzir o consumo. Embora o aparelho não seja solução para ansiedade ou compulsão, a barreira prática facilita romper ações automatizadas e reaprender a tolerar espera, silêncio e tédio, elementos importantes para recuperar atenção e autorregulação.

Jovens trocam smartphones por "dumbphones" em busca de menos distrações

Imagem: Divulgação/Commodore

O smartphone precisa ser abandonado?

Nem sempre. Muitos serviços cotidianos — como aplicativos bancários, autenticação em duas etapas, transporte, trabalho e estudos — continuam concentrados em smartphones. Por isso, Paulo Cesar Porto Martins sugere que parte da experiência dos dumbphones pode ser reproduzida em aparelhos comuns por meio de medidas como desativar notificações desnecessárias, remover redes sociais da tela inicial, usar modos de foco, deixar o telefone fora do quarto à noite e instalar bloqueadores de aplicativos.





O crescimento dos dumbphones reflete, segundo observadores do mercado, uma mudança na relação com a tecnologia, na qual a busca por equilíbrio digital passa a ter peso semelhante à competição por especificações técnicas. Para muitos jovens, abrir mão do acesso direto às redes sociais no celular é visto como uma forma de reconquistar tempo, concentração e qualidade de vida.

Com informações de Canaltech