O fenômeno climático El Niño já começa a influenciar o clima brasileiro, segundo meteorologistas ouvidos, mas não é responsável por todas as ocorrências meteorológicas recentes. Especialistas afirmam que, embora os efeitos do aquecimento anômalo do Pacífico sejam perceptíveis em algumas regiões — sobretudo no Sul — as fortes rajadas de vento que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro tiveram origem distinta.

Onde e como o El Niño já age

De acordo com Mariana Pallotta, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o país está sob influência do El Niño desde junho. Ela afirma que os primeiros sinais do fenômeno já se manifestaram na circulação atmosférica, com impactos mais evidentes na Região Sul.

Os prognósticos indicam chuvas acima da média e eventos mais persistentes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com maior potencial para tempestades acompanhadas de raios, fortes rajadas de vento e granizo. O meteorologista Gustavo Verardo, da Climatempo, também relaciona as precipitações no Sul ao El Niño e projeta aumento na frequência de granizo e outros eventos severos na região.

Além do Sul, os especialistas apontam efeitos esperados em outras partes do país: redução das chuvas e atraso da estação chuvosa na Região Norte; ondas de calor mais intensas no Centro-Oeste e em parte do Sudeste, resultado da permanência de frentes frias sobre o Sul que dificultam seu avanço para outras áreas.

Por que as ventanias em SP e RJ não foram causadas pelo El Niño

Segundo Mariana Pallotta, as rajadas observadas em São Paulo e no Rio de Janeiro derivaram do deslocamento de uma frente fria que permaneceu estacionada sobre o Sul antes de avançar para o Sudeste. O movimento dessa massa de ar frio contra o ar mais quente na região teria criado um forte contraste térmico, acelerando os ventos — fenômeno apontado também por Gustavo Verardo como causa direta das ventanias.

O professor Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável e docente de Física Atmosférica na Universidade de São Paulo (USP), ressalta que o El Niño ainda está em formação e pode não ter contribuído para os episódios de vento intenso ocorridos na semana passada em São Paulo e no Rio de Janeiro.

El Niño já atua no Brasil, mas não explica as ventanias em São Paulo e no Rio de Janeiro

Imagem: Efe

O que esperar nos próximos meses

Os especialistas consultados concordam que os efeitos do El Niño tendem a se intensificar nos próximos meses, mas lembram que a magnitude e o perfil desses impactos dependem da interação com outras condições atmosféricas. O Cemaden, conforme Mariana Pallotta, ampliou o monitoramento e coordena ações com outros órgãos federais para avaliar riscos e orientar as Defesas Civis.

Paulo Artaxo destaca que o padrão climático associado ao El Niño geralmente inclui chuvas mais fortes no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, secas em áreas do Centro-Oeste, Nordeste e Amazônia, além de ondas de calor mais duradouras no Sudeste. Ele acrescenta que o aquecimento global tende a intensificar esses fenômenos, citando que o oceano já se encontra aproximadamente um grau mais quente do que algumas décadas atrás, o que fornece mais energia ao sistema climático.

Como resposta a esse cenário, pesquisadores apontam a necessidade de ampliar ações de adaptação, mencionando iniciativas como o Adapta Brasil, ainda em processo de implementação para orientar a preparação de municípios e estados diante de uma maior frequência e intensidade de eventos extremos.

Com informações de Olhardigital