Um nematoide identificado em 2011 como Halicephalobus mephisto levou cientistas a revisar até onde a vida pode existir na crosta terrestre. O animal foi detectado em amostras de água retiradas de rochas a cerca de 1,3 km abaixo da superfície, coletadas em 2008 na mina Beatrix, na África do Sul.
Pesquisadores que filtraram milhares de litros de água subterrânea encontraram o verme, confirmado após a passagem do material por filtros instalados nas fissuras das rochas. Na primeira operação foram analisados mais de 6 mil litros; em investigações posteriores em outras minas sul-africanas os cientistas filtraram mais de 12 milhões de litros e detectaram diversas espécies de nematoides, além de fungos, invertebrados e microrganismos.
O exemplar batizado de Halicephalobus mephisto chamou atenção por ser uma fêmea capaz de se reproduzir sem cópula. Antes de morrer, ela produziu oito ovos viáveis, o que permitiu a manutenção e o estudo da espécie em laboratório. Descendentes do animal foram enviados ao pesquisador genômico John Bracht, da Universidade Americana, em Washington (Estados Unidos), para análises controladas.
Adaptações a um ambiente quente e isolado
Em comparação com nematoides como Caenorhabditis elegans, associados a matéria orgânica em decomposição e a temperaturas mais baixas, o verme-do-diabo mostrou melhor desempenho próximo de 37 °C, condição semelhante ao ambiente subterrâneo em que foi encontrado. Sua locomoção também difere: em vez de nadar, o animal usa estruturas corporais para se fixar às superfícies, o que facilita a movimentação em espaços estreitos entre rochas.
Estudos genéticos trouxeram pistas sobre os mecanismos de sobrevivência. Em 2019, a equipe liderada por John Bracht identificou grande número de genes ligados à produção de proteínas de choque térmico, moléculas que protegem outras proteínas contra danos causados por altas temperaturas. Pesquisas posteriores, realizadas em 2024, analisaram a citocromo c oxidase — componente envolvido no uso de oxigênio para gerar energia — e indicaram que essa enzima funciona melhor em temperaturas elevadas, diminuindo sua atividade em ambientes mais frios.
Segundo Bracht, essa característica metabólica pode representar uma estratégia evolutiva do organismo: “Eles estão garantindo que irão se reproduzir mais no ambiente melhor, mais quente”, afirmou o pesquisador. A reprodução assexuada é vista como uma possível vantagem em habitats onde encontros entre indivíduos podem ser raros, embora os cientistas considerem que machos da espécie ainda possam existir e não terem sido encontrados.
Imagem: Divulgação
Implicações sobre a biosfera profunda
A origem desses organismos em profundidade permanece em estudo. Pesquisas conduzidas por Gaetan Borgonie e pela geobióloga Cara Magnabosco sugerem que alguns nematoides podem ter migrado para essas zonas por meio do fluxo de água subterrânea, possivelmente influenciado por eventos sísmicos.
Estudos sobre a chamada biosfera profunda apontam que microrganismos abaixo da superfície constituem parcela relevante da vida microbiana do planeta, estimada entre 12% e 20% da biomassa microbiana total. Casos como o da bactéria Desulforudis audaxviator, encontrada em regiões profundas de três continentes e com semelhança genética entre populações distantes, indicam que organismos podem persistir nesses ambientes por períodos geológicos, possivelmente desde a fragmentação de Pangeia há cerca de 165 milhões de anos.
O achado do verme-do-diabo reforça a ideia de que ecossistemas complexos podem existir em condições escuras, quentes e com baixo contato com a superfície, ampliando a compreensão sobre as condições em que a vida pode se manter na Terra.
Com informações de Olhardigital

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6