O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14% ao ano nesta quarta-feira (5). Com a taxa em dois dígitos, parte do mercado já projeta novo corte em setembro e enceramento de 2026 entre 13,5% e 13,75%. Especialistas ouvidos pelo Bora Investir avaliam as implicações para aplicações em renda fixa e renda variável e apontam onde estariam as melhores oportunidades.

A perspectiva para juros e retorno real

Eduardo Rahal, analista-chefe da Levante Inside Corp., observa que, mesmo com o ciclo de queda de juros em andamento, o juro real esperado deve continuar próximo de 9% no fim do ano, nível que considera um dos mais restritivos globalmente. Nesse ambiente, a renda fixa ainda remunera bem, mas exige seleção por prazos e indexadores; já a bolsa volta a atrair investidores, com entrada gradual recomendada pelos especialistas.

Ainda dá tempo de investir na renda fixa?

Para Beny Fard, sócio da Segundo Minuto, a janela para investir em renda fixa no longo prazo não se perdeu, embora o período de juro real muito elevado esteja se fechando. Gabriel Félix, advisor da Blue3 Investimentos, compara a renda fixa a uma escada rolante: não é preciso estar no primeiro degrau para aproveitar a subida. Rahal ressalta que muitos investidores que entraram no início do ciclo capturaram a antecipação dos cortes, mas as taxas de entrada seguem historicamente altas.

Prefixado, IPCA+ ou pós-fixado?

A Levante Investimentos vê oportunidade em prefixados de curta e média duração para aproveitar taxas nominais elevadas sem expor a carteira aos riscos de prazos longos, enquanto prefere títulos IPCA+ para horizonte mais longo. Rahal cita a NTN-B com vencimento em 2040, negociada próxima de IPCA + 7,6% ao ano, destacando, porém, a volatilidade por marcação a mercado. Félix recomenda concentração em ativos indexados ao IPCA no médio e longo prazo como proteção patrimonial.

Por outro lado, Gianluca Di Mattina, da Hike Capital, alerta para o risco da marcação a mercado em títulos atrelados à inflação e prefere prefixados para travar taxas elevadas antes de novos cortes. A Hike também menciona FIDCs com garantias reforçadas e ativos de infraestrutura como alternativas. Félix lembra que títulos pós-fixados devem ser escolhidos pela liquidez, não pelo potencial de ganho, pois são os que menos se beneficiam da queda de juros.

Reserva de emergência

Especialistas mantêm a recomendação da reserva de emergência em ativos pós-fixados com liquidez diária, como o Tesouro Selic. CDBs de bancos sólidos pagando a partir de 100% do CDI, LCIs e LCAs com liquidez diária (isentas de IR) e fundos DI de grandes gestores com resgate em D+0 ou D+1 também são sugeridos. Rahal destaca que, com Selic a 14%, a reserva de emergência rende entre os maiores juros do mundo.

Bolsa e alocação gradual

Os analistas consultados concordam que a bolsa deve fazer parte da carteira, mas recomendam entradas graduais. Régis Chinchila, da Terra Investimentos, aponta que a combinação de inflação desacelerando, atividade perdendo ritmo e cortes da Selic tende a favorecer a reprecificação de ativos de risco, recomendando foco em empresas de qualidade. Rahal ressalta que o investidor estrangeiro tem sido o principal motor da bolsa e que a trajetória pode ser volátil. Artur Horta, da GTF Capital, adverte sobre resgates em fundos de ações e multimercados desde 2022 e sobre o impacto do juro alto nas margens empresariais, embora veja oportunidades de longo prazo em cenários de volatilidade, inclusive por fatores eleitorais.

Selic a 14%: especialistas indicam alternativas na renda fixa e na renda variável

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Setores com potencial e riscos

Entre os setores destacados por analistas estão elétrico e saneamento, por previsibilidade de receita e dividendos; commodities e óleo e gás, segundo Terra e Levante; e, no financeiro, grandes bancos e seguradoras, com críticas à necessidade de seleção rigorosa devido à inadimplência. Horta menciona construção voltada a programas habitacionais vinculados ao FGTS como menos sensível ao ciclo de juros. A Hike vê oportunidades em incorporação de baixa renda, saneamento, energia e varejo farmacêutico. A Terra também destaca fabricantes de aviões, com receitas em dólar.

Setores e perfis para evitar

Os especialistas recomendam cautela com empresas endividadas: Rahal avalia que, com Selic em torno de 14%, companhias com dívida mal estruturada podem destinar grande parte da geração operacional ao pagamento de juros. Di Mattina inclui empresas com vencimentos de dívida concentrados no curto prazo e caixa deteriorado. Há alerta adicional para varejo de bens e consumo discricionário, locadoras de veículos, setor educacional, siderurgia, telecomunicações e petroleiras de menor porte. Em geral, a orientação é priorizar companhias com balanços sólidos, baixa alavancagem e boa geração de caixa.

Na atual conjuntura de Selic a 14%, especialistas dizem que renda fixa continua atraente com seleção por indexador e prazo, enquanto a renda variável volta a ser opção para quem alocar gradualmente e escolher empresas resilientes.

Com informações de Borainvestir.b3