As chamadas “canetas emagrecedoras”, usadas no tratamento da obesidade, ganharam espaço entre opções terapêuticas mais eficazes, mas permanecem financeiramente inacessíveis para grande parte da população brasileira. Reportagem da Deutsche Welle destacada pelo Olhardigital aponta que o custo desses medicamentos pesa mais sobre famílias de baixa renda, justamente os grupos com maior prevalência da doença.

Atualmente, nenhuma dessas canetas está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o que amplia a exclusão de pacientes que não conseguem arcar com as despesas do tratamento. A falta de recursos pode levar à interrupção da terapia ou ao recurso a produtos oriundos do mercado ilegal.

Quem e o que: prevalência e eficácia dos medicamentos

O último levantamento do Vigitel, do Ministério da Saúde, registra 25,7% de adultos brasileiros com obesidade. A condição está associada a comorbidades como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares. Medicamentos mais recentes que mimetizam o GLP-1, como Wegovy e Ozempic, promovem perdas de peso superiores às terapias antigas — até cerca de 17% do peso corporal em alguns casos. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, pode levar a redução de até 22%.

Apesar da maior eficácia, a disponibilidade permanece restrita: pesquisa da NielsenIQ Brasil indica que as canetas estão presentes em aproximadamente 5% dos lares do país, e em 84% desses domicílios o gasto com o medicamento tem impacto moderado ou alto no orçamento mensal.

Para o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SEBM), é urgente incluir essas opções terapêuticas com preços compatíveis para as pessoas que podem se beneficiar delas.

Redução de preço com novos fabricantes

A expiração da patente da semaglutida permitiu a entrada de novos fabricantes e contribuiu para queda nos valores. Em junho, foi lançada a primeira caneta nacional com esse princípio ativo, a Ozivy, produzida pela EMS. A Anvisa também aprovou o registro de outros cinco produtos à base de semaglutida.

O Ministério da Saúde diz esperar que a concorrência gere quedas significativas nos preços; especialistas mencionam reduções de até R$ 1 mil em algumas terapias. Entretanto, a tirzepatida segue com custo superior: tratamentos com Mounjaro variam de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil por mês.

Canetas emagrecedoras evidenciam desigualdade no acesso à saúde no Brasil

Imagem: Divulgação

Especialistas alertam que, por se tratar de terapias de manutenção, interromper o uso por falta de recursos tende a provocar retorno do peso anterior ao tratamento.

Barreiras não medicamentosas e risco do mercado ilegal

O controle da obesidade envolve também acompanhamento nutricional e prática de atividade física, fatores que elevam os gastos totais do tratamento. Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, ressalta que o acesso a uma rotina saudável é desigual.

  • Alimentação saudável costuma ter custo maior;
  • A prática de exercícios depende de acesso a espaços adequados;
  • Os medicamentos podem exigir uso contínuo;
  • O custo pode levar pacientes a abandonar a terapia;
  • Produtos do mercado ilegal não garantem procedência, pureza ou armazenamento seguros.

Sem recursos para pagar tratamentos regulares, algumas pessoas recorrem a canetas contrabandeadas — prática reprovada pela Anvisa devido à falta de garantias sobre procedência e qualidade. Profissionais ouvidos afirmam que ampliar o acesso a tratamentos seguros é essencial para evitar que pacientes escolham entre custo elevado e risco de produtos irregulares.

Com informações de Olhardigital