Batendo à porta de consultórios e redes sociais, a acupuntura — prática milenar da medicina tradicional chinesa — tem sido procurada por quem busca ajuda para controlar o apetite e perder peso. Pergunta recorrente entre pacientes e profissionais é se a técnica consegue regular a fome de forma direta. A reportagem apurou que, segundo as evidências científicas atuais, a acupuntura pode ter efeitos indiretos em alguns cenários, mas não há comprovação robusta de que ela seja um método principal para emagrecimento.

O que mostram as evidências

Pesquisas indicam três possíveis frentes de benefício: alívio de sintomas que afetam a alimentação — como ansiedade, estresse, insônia, dor e desconfortos digestivos; apoio à adesão ao plano alimentar quando há melhora de sintomas gastrointestinais; e alterações hormonais discretas envolvendo substâncias ligadas à fome e à saciedade, como grelina e leptina. Esses últimos achados, no entanto, vêm de estudos pequenos e heterogêneos.

Na prática clínica, a acupuntura pode reduzir episódios de alimentação impulsiva associados à ansiedade, ajudar pacientes com desconforto digestivo pós-refeição e atuar como recurso complementar dentro de um plano de cuidado que inclua orientação nutricional, atividade física e, quando necessário, apoio psicológico ou tratamento médico.

Limitações e recomendações

Revisões sistemáticas e diretrizes médicas abordam o tema com cautela. Muitos ensaios que investigam o papel da acupuntura em obesidade, síndrome metabólica ou compulsão alimentar apresentam limitações: amostras pequenas, falta de grupos de controle adequados, acompanhamento curto e dificuldade de replicação dos resultados. Em distúrbios gastrointestinais funcionais, há relatos de melhora de sintomas como dor abdominal, distensão, náuseas e sensação de digestão lenta, mas o nível de evidência tem sido classificado como moderado ou baixo devido à variação metodológica entre estudos.

Em casos de sobrepeso e obesidade, alguns estudos registram pequenas reduções de peso e medidas corporais quando a acupuntura é associada a dieta e mudanças no estilo de vida. Ainda assim, essas evidências não são consideradas suficientes para recomendar a técnica como tratamento principal.

Entidades médicas brasileiras ligadas à endocrinologia, obesidade e gastroenterologia mantêm que o manejo dessas condições deve seguir estratégias consolidadas: alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, acompanhamento psicológico quando necessário e, em situações específicas, uso de medicamentos ou procedimentos cirúrgicos. A acupuntura é citada principalmente como terapia complementar para controle de sintomas.

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Como a técnica é explicada e que estudos faltam

Na lógica da medicina tradicional chinesa, a acupuntura visa equilibrar o fluxo de energia vital (qi) por meridianos, restaurando funções do organismo. Os mecanismos biológicos propostos pela ciência ainda estão sob investigação. Pesquisadores pedem ensaios maiores, com métodos padronizados e seguimento prolongado, para determinar em que circunstâncias a técnica oferece benefícios consistentes.

Perguntas práticas

Alguns pontos de orientação: auriculoterapia utiliza pontos na orelha e tem evidências limitadas, parecidas com a acupuntura corporal; relatos clínicos mencionam melhora de sintomas digestivos entre a 2ª e a 5ª sessão, com variação individual; e há contraindicações ou cautelas, como infecções de pele no local, sangramentos ativos, uso de anticoagulantes em doses elevadas, fobia intensa de agulha, e necessidade de avaliação cuidadosa em gestantes, portadores de marca‑passo ou pessoas com doenças crônicas graves. A acupuntura não substitui acompanhamento psicológico em casos de compulsão alimentar. Em crianças e adolescentes, o uso só é recomendado quando o profissional tem experiência com essa faixa etária e há indicação clínica e consentimento dos responsáveis, sendo que intervenções comportamentais e suporte familiar costumam ser priorizados.

O interesse pela acupuntura como recurso para controlar o apetite segue, portanto, acompanhado de recomendações para uso complementar e demanda por estudos mais robustos.

Com informações de Correiobraziliense