A Amazon apresentou à Federal Communications Commission (FCC) uma contestação formal ao projeto da SpaceX de lançar até um milhão de satélites em órbita terrestre, classificando a proposta como “especulativa” e “impossível”. A disputa entre as empresas, controladas por Jeff Bezos e Elon Musk, respectivamente, levantou questões sobre concentração orbital e uso do espectro de radiofrequências.

TRANSMISSÃO: Record

Plano e alegações da SpaceX

A SpaceX propôs à FCC uma constelação de até um milhão de satélites equipados com data centers no espaço, com o objetivo de fornecer capacidade de computação para sistemas de inteligência artificial na Terra. No documento enviado ao regulador, a empresa afirmou que a computação espacial pode, em breve, ser mais barata que a infraestrutura terrestre: “Liberada das restrições da implantação terrestre, dentro de poucos anos, o menor custo para gerar computação de IA será no espaço”.

A proposta acompanha mudanças estratégicas no grupo de Musk, que fundiu a SpaceX com a startup de IA xAI, criadora do chatbot Grok, e já integrou a rede social X, além de ter alterado prioridades na Tesla. O pedido, porém, não especifica dados essenciais da frota planejada, como tamanho dos satélites, altitudes exatas, faixas de frequência ou custos totais.

Críticas da Amazon

A Amazon, dona do projeto Amazon Leo (antigo Kuiper), apresentou três críticas principais à proposta da SpaceX: falta de informações técnicas completas, risco de monopólio orbital e inviabilidade técnica. No documento enviado à FCC, a empresa afirmou que a SpaceX descreve apenas parte da futura frota, o que dificultaria avaliar impactos operacionais.

Em relação ao risco de concentração, a Amazon argumenta que permitir o lançamento de um número tão grande de satélites poderia reservar posições orbitais estratégicas e o uso intensivo de radiofrequências, “impedindo” a atuação de concorrentes. A companhia também contestou a viabilidade do plano, apontando limites atuais da indústria espacial.

Cálculos e capacidade de lançamento

A Amazon citou como referência o recorde mundial de lançamentos de satélites em 2025, quando 4.526 unidades foram colocadas em órbita. Mesmo que a SpaceX mantivesse sozinha esse ritmo anual, seriam necessários cerca de 220 anos para atingir a meta de um milhão. Considerando uma vida útil média de cinco anos por satélite, a reposição exigiria cerca de 200 mil novos lançamentos por ano — mais de 44 vezes a atual capacidade global.

Contexto do mercado e reação pública

Hoje, a SpaceX já domina a internet via satélite com a Starlink, controlando aproximadamente dez mil dos cerca de 14 mil satélites ativos, em órbitas baixas entre cerca de 500 km e 2.000 km. A empresa também busca ampliar serviços, incluindo conexão direta a celulares. A Starlink é a 13ª maior provedora de internet do Brasil, com cerca de 656 mil clientes.

Imagem: Divulgação

Um grupo de astrônomos e ativistas contra a poluição espacial lançou campanha contra o projeto da SpaceX após a FCC incluir a proposta nas avaliações prioritárias; a iniciativa reuniu cerca de 200 mil apoiadores e orienta o envio de petições formais.

Posição da FCC e situação regulatória

O presidente da FCC, Brendan Carr, criticou publicamente a Amazon, afirmando que a empresa ainda precisa lançar cerca de mil satélites para cumprir suas metas e questionando os cálculos apresentados pela rival. Carr disse ainda entender por que a Amazon acharia que outros levariam séculos para lançar um milhão de dispositivos.

Atualmente, a Amazon tem cerca de 200 satélites em órbita e precisa lançar mais 1.618 até o fim do ano para atender exigências regulatórias, tendo solicitado extensão do prazo até julho de 2028. Mesmo com aprovação da FCC, a expansão das operações depende de autorizações de reguladores nacionais para atuação internacional; no Brasil, por ora, não há novo pedido à Anatel para ampliar a rede, embora a empresa busque acessar novas faixas de frequência e já tenha autorização para aumentar o número de satélites utilizados no país.

No cenário competitivo, a Amazon tem acordo com a operadora Sky para atuação no Brasil, e a chinesa SpaceSail planeja iniciar operações no país ainda este ano. A China também incluiu em seu 15º plano quinquenal (2026–2030) a criação de uma “rede nacional de computação”, com fortalecimento da infraestrutura de internet via satélite.

O debate segue sob análise da FCC, que terá de avaliar as implicações técnicas, operacionais e concorrenciais do plano da SpaceX.

Com informações de Olhardigital