O embate entre a startup de inteligência artificial Anthropic e o governo dos Estados Unidos escalou nos últimos dias depois de o secretário de Defesa, Pete Hegseth, exigir que a empresa liberasse seu modelo, o chatbot Claude, para uso militar sem restrições. A companhia manteve sua posição de não autorizar aplicações que envolvam armas totalmente autônomas ou vigilância doméstica em massa.

Fontes como a Associated Press e reportagens no The Wall Street Journal informaram que o Departamento de Defesa deu prazo até sexta-feira (27) para que a Anthropic aceite os termos propostos pelo Pentágono. O limite estabelecido no último envio de oferta foi de 15h01 (Brasília UTC-3).

O governo advertiu que, se a Anthropic não concordar, poderá classificá‑la como “risco da cadeia de suprimentos”, o que a excluiria de contratos públicos, ou ainda acionar a Lei de Produção de Defesa (DPA), ferramenta que confere ao presidente poderes para compelir a produção e o fornecimento de bens considerados essenciais à segurança nacional.

Posição da Anthropic

Em comunicado divulgado na quinta-feira (26), o CEO Dario Amodei afirmou que a empresa não pode, de “boa consciência”, permitir o uso irrestrito de seus modelos pelo Departamento de Defesa. Amodei disse que as ameaças do Pentágono não alteram a decisão da companhia e que sua preferência é manter o fornecimento ao governo com as salvaguardas já implementadas.

O executivo também declarou que, se o departamento optar por retirar a Anthropic de contratos, a empresa trabalhará para assegurar uma transição ordenada a outro fornecedor, evitando impactos em operações militares e missões críticas.

Reivindicações do Pentágono e contexto operacional

O Pentágono afirma que não pretende empregar os modelos da Anthropic em armamentos totalmente autônomos nem em vigilância doméstica em massa — prática que, conforme seu porta‑voz-chefe Sean Parnell, seria ilegal. Ainda assim, a pasta exige que os contratos permitam o uso da tecnologia para “todos os fins lícitos”, argumento que pode limitar as restrições impostas pela empresa.

Relatos do Wall Street Journal indicam que o Claude foi usado em uma operação na Venezuela que levou à captura do presidente Nicolás Maduro, mas não há confirmação oficial de parte da Anthropic ou do Departamento de Defesa sobre os detalhes do emprego do sistema.

Imagem: Divulgação

Riscos, sanções e concorrência

Se rotulada como risco da cadeia de suprimentos, a Anthropic enfrentaria restrições comerciais, impedimento em licitações e exclusão de setores considerados críticos. A aplicação da DPA poderia obrigar a empresa a fornecer sua tecnologia ao Pentágono sob pena de multas, sanções criminais, perda de contratos ou apreensão de bens, entre outras medidas; em contrapartida, a lei prevê proteção antitruste e prioridade no acesso a suprimentos.

O Departamento de Defesa já teria contatado grandes contratadas do setor, como Boeing e Lockheed Martin, para avaliar exposição aos produtos da Anthropic. Em julho de 2025, a empresa recebeu, junto a Google, OpenAI e xAI, um contrato de US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão) para desenvolver capacidades de IA para a segurança nacional; concorrentes aceitaram contratos que permitem uso em todas as aplicações legais do departamento, reduzindo a margem de negociação da Anthropic.

Debate público e institucional

Especialistas manifestaram preocupação sobre o impacto de ações governamentais sobre o desenvolvimento da empresa e sobre a necessidade de supervisão legal mais rigorosa diante da rápida adoção de IA pelo Pentágono. Para críticos, o caso levanta questões sobre os limites éticos do emprego de inteligência artificial em contextos militares e de vigilância, assim como sobre a disposição do governo em intervir diretamente em decisões corporativas em setores estratégicos.

À medida que vence o prazo imposto pelo Pentágono, a Anthropic mantém sua recusa em abrir mão das salvaguardas que considera essenciais para o uso responsável de sua tecnologia.

Com informações de Olhardigital