Empreendimentos típicos do Rio de Janeiro têm levado cardápios, decoração e conceitos de boteco para outras capitais. A chopeira de serpentina de bronze, com 90 metros de comprimento e origem nos anos 1950, que é a peça mais emblemática do Velho Adônis, de Benfica (Zona Norte do Rio), foi transferida para Brasília para a inauguração da primeira filial fora da cidade.

O Novo Adônis, bar português nascido no Rio, será aberto na capital federal no fim deste mês, segundo antecipou a coluna de Ancelmo Gois. A filial brasiliense oferecerá versões reduzidas dos pratos mais pedidos da matriz, como bacalhau à lagareiro e polvo com bacon, e terá capacidade para 160 pessoas, com estrutura pensada para receber eventos de grande porte.

Diferenças culturais e adaptações

O proprietário e chef João Paulo Campos, sócio da holding InteRCJ e parceiro de Carla Rocha, decidiu enxugar o cardápio para adequar a proposta ao público de Brasília. A nova unidade foi instalada no clube da AABR (Associação Atlética Banco de Brasília), no Setor de Clubes Esportivos Sul (SCES), com varanda que deixa visível o Lago Paranoá. Para combinar com o perfil local, o casarão brasiliense recebeu arquitetura e decoração mais sofisticadas — escadaria, jardim vertical, janelas de vidro e luminárias contemporâneas — em contraste com o visual mais informal do Velho Adônis no Rio. Apesar de funcionar dentro de um clube, a filial terá entrada exclusiva.

Campos também destacou a logística de abastecimento: enquanto o Velho Adônis se beneficia da proximidade ao Cadeg e à variedade de peixarias na Zona Norte do Rio, muitos insumos sazonais e frutos do mar são mais caros em Brasília e deverão ser trazidos de outros locais.

Expansão em ondas e exemplos em São Paulo

O movimento de levar bares cariocas para fora do estado não é novo. O Bar do Zeca, presente há oito anos no Rio, desembarcou em São Paulo em 2023. O Braca Bar, inspirado no Bracarense do Leblon, está em São Paulo desde 2022 e hoje opera duas unidades, em Santana e no Itaim Bibi. No Itaim também funciona a versão paulistana do Boteco Belmonte, do empresário Antônio Rodrigues, que administra 26 estabelecimentos, a maioria no Rio, além de cinco unidades em Portugal.

Rodrigues observa diferenças marcantes entre os mercados: em São Paulo há forte presença do turismo de negócios, enquanto no Rio prevalece o turismo de diversão, o que altera a sazonalidade e o comportamento do público. Essa distinção já levou ao fechamento de uma unidade do Belmonte na Vila Madalena.

Da orla para os parques

Além dos bares, quiosques cariocas têm se instalado em parques paulistas. O Pato com Laranja, que serve comida asiática contemporânea no Leblon e na Barra, programou inauguração no Parque Villa-Lobos, em Alto de Pinheiros, para meados deste mês, mantendo a proposta do Rio. Pedro Tinoco, sócio, e a chef Andréa Tinoco explicam que a expansão busca pontos estratégicos com público alinhado à marca.

Imagem: Ap

No mesmo parque está, desde o ano passado, uma unidade do Espetto Carioca. A rede tem lojas na capital fluminense, na Região dos Lagos e em Niterói, e soma mais de 50 unidades no país. O Espetto pertence ao Grupo Impettus, que também franqueia marcas como Mané e Buteco Seu Rufino, criado por Antônio Rufino.

Tradição e adaptação geracional

O Bracarense, do Leblon, completa 65 anos em três dias e mantém relevância entre diferentes gerações. As duas unidades do Braca Bar em São Paulo representam uma releitura do original carioca: segundo Kadu Tomé, que comanda a operação em Sampa, a casa paulista preserva referências tradicionais, mas com formato adaptado ao comportamento local — onde o público costuma reservar mesa e ter horários definidos.

Para enfrentar a concorrência em mercados como o paulistano, proprietários participam de compras conjuntas e eventos do setor, como a convenção Food Club, realizada recentemente em Brasília. Tomé destaca que o sucesso obtido no Rio nem sempre se repete automaticamente em outras praças. Como exemplo, o chope foi o diferencial do Braca, que conquistou o título de melhor de São Paulo por dois anos consecutivos em competição da Ambev, enquanto a preferência por petiscos varia conforme a localização: perto da praia, o bolinho de aipim recheado com camarão e catupiry tem grande saída; em áreas próximas a museus e parques, o bolinho de carne é mais procurado. Tomé lembra que tentou inserir esse último petisco no cardápio do Rio sem sucesso.

A chegada de bares e quiosques cariocas a Brasília e São Paulo, portanto, combina preservação de identidade com ajustes operacionais e estéticos para atender expectativas locais.

Com informações de Infomoney