TRANSMISSÃO: Record | Band

A família Walton, herdeira do império Walmart, tem financiado e moldado grande parte da transformação da pequena Bentonville, no Arkansas, mas o envolvimento crescente dos bilionários na cidade tem gerado resistências e críticas de parte da população.

O ponto de partida da narrativa é a Walton’s 5&10, a loja onde, em 1950, Sam Walton iniciou o negócio que viraria o Walmart. Hoje esse estabelecimento funciona como museu, com uma réplica da picape Ford F150 vermelha de 1979 estacionada em frente. Ao mesmo tempo, Bentonville deixou de ser uma cidade de cerca de 6.000 habitantes nos anos 1970 e passou a abrigar mais de 60.000 moradores; projeta-se que a população possa triplicar nas próximas décadas, impulsionada pela atração de profissionais de tecnologia e gestão.

A família Walton detém aproximadamente 44% das ações do Walmart, cujo valor de mercado é estimado em cerca de US$ 1 trilhão. Por meio de fundos de investimento, empreendimentos hoteleiros e iniciativas filantrópicas — incluindo a Walton Family Foundation, que doa cerca de meio bilhão de dólares por ano —, os filhos e netos de Sam Walton financiaram museus, centros culturais, trilhas, parques e melhorias urbanas, como o Crystal Bridges Museum of American Art e o The Momentary.

Benfeitorias na cidade e desgaste da imagem

Embora muitos moradores reconheçam benefícios trazidos pelos investimentos — bares, hotéis boutique, centros culturais e infraestrutura —, a presença dominante da família também provoca queixas. Episódios recentes reacenderam desconfiança: em 2023, a avaliação sobre a reclassificação do Buffalo National River para parque nacional mobilizou moradores de Jasper, que temiam turismo excessivo e perda de autonomia local. Na reunião pública sobre o tema, mais de 1.100 pessoas compareceram e outras 1.000 acompanharam online; a reação levou os Walton a abandonarem o esforço.

Além disso, ações de empresas ligadas aos netos de Sam geraram repercussão negativa. Em março de 2024, o restaurante Pressroom, do grupo Ropeswing, fechou sem aviso prévio, deixando funcionários desempregados e mobilizando campanhas de apoio no GoFundMe. Também houve casos de estabelecimentos locais expulsos por mudanças imobiliárias promovidas por grupos ligados a Tom e Steuart Walton; uma comerciante, Jessica Keahey, teve de encerrar o negócio após pouco mais de três meses de aviso para desocupar um mercado.

Empréstimos, doações e tensões

Em outro episódio que suscitou debate, Alice Walton, por meio de sua fundação, concordou em conceder um empréstimo de US$ 239 milhões à prefeitura de Bentonville para modernizar o sistema de esgoto, estruturado como um título a ser pago por incorporadores. A proposta foi defendida pela administração municipal como alternativa viável após esgotadas outras fontes de financiamento; o diretor financeiro da cidade, Patrick Johndrow, afirmou que os termos eram generosos. Ainda assim, houve reclamações de construtores e questionamentos públicos sobre por que o valor não teria sido oferecido como doação.

Imagem: Divulgação

Representantes da família, como Tom e Steuart Walton, afirmam ouvir críticas e dizem ter a intenção de investir para promover crescimento sustentável e melhorar a qualidade de vida local. Eles mantêm presença visível na cidade — participam de obras de trilhas, frequentam mercados e eventos — e, segundo relatos, procuram se aproximar da comunidade, embora reconheçam imperfeições nas ações de suas organizações.

Para parte dos moradores, a situação resume um dilema: a grande escala de filantropia e investimento trouxe projetos públicos e culturais, mas também levantou dúvidas sobre gentrificação, influência privada sobre decisões cívicas e impactos negativos em pequenos negócios.

O legado de Sam Walton, que morreu em 1992, e a atuação dos descendentes continuam a definir a dinâmica de Bentonville, entre aportes financeiros expressivos e reações adversas da população.

Com informações de Infomoney