O assistente de inteligência artificial Gemini, do Google, mencionou o nome completo de uma pessoa real durante uma conversa com um usuário, episódio que reacendeu dúvidas sobre privacidade e segurança de dados em modelos generativos. O caso foi divulgado em 1º de abril de 2026, e não se tratou de uma brincadeira.

A desenvolvedora Julia Krisnarane publicou no Twitter que recebeu, por meio de um contato no LinkedIn, a informação de que o Gemini havia citado seu nome completo a um desconhecido chamado Lucas Villela. O link compartilhado do diálogo permitiu a Julia confirmar que a menção ao seu nome ocorreu sem contexto aparente dentro de uma conversa técnica sobre artigos científicos.

Julia afirmou ao TecMundo que utiliza o Gemini na versão Pro para estudantes diariamente e que ficou assustada com a ocorrência, já que seu nome é incomum e, na visão dela, não haveria outra pessoa com o mesmo nome. Ela também relatou preocupação sobre a possibilidade de exposição de dados sensíveis caso esse tipo de erro se repita.

Os dois envolvidos não tinham relação prévia: não moram no mesmo estado, não possuem contatos em comum e nunca haviam interagido diretamente. Mesmo assim, o modelo atribuiu a Julia a atuação profissional de Lucas em trechos da conversa, mesclando identidades.

Relatos semelhantes e o fenômeno das “alucinações”

Após a divulgação, outros usuários relataram ocorrências parecidas nas redes sociais, citando situações em que o Gemini passou a chamar pessoas por nomes incorretos, completos ou aparentemente reais. Esses episódios refletem um problema conhecido entre pesquisadores e desenvolvedores de IA: as chamadas “alucinações”, quando o modelo produz informações imprecisas ou combina dados de forma inadequada.

Possíveis causas

Em entrevista ao TecMundo, Lucas Villela, formado em Ciência da Computação pela Unesp e mestrando na UFRGS, explicou que modelos de linguagem operam com base em probabilidades e que, por isso, é necessário verificar a veracidade do que é gerado. Entre as hipóteses mencionadas estão a memorização de dados usados no treinamento, falhas de “colisão de dados” ou contaminação cruzada entre contextos e serviços integrados — por exemplo, histórico do navegador, e-mail ou outras integrações que possam influenciar as respostas.

Segundo Lucas, o próprio Gemini chegou a admitir um “erro sistêmico” quando questionado sobre o episódio.

Imagem: Ap

Posicionamento do Google

O Google, procurado pela reportagem, não comentou diretamente o caso. A empresa encaminhou links com informações públicas sobre privacidade e o funcionamento do Gemini, nos quais afirma que interações com o assistente podem ser usadas para treinamento e aprimoramento dos modelos, com revisão humana em alguns casos.

O Google também informa que o uso de dados vem ativado por padrão, mas pode ser desativado nas configurações (opção Manter atividade). Ainda assim, recomenda-se não fornecer informações sensíveis nas conversas, já que parte dos dados pode ser utilizada para operações básicas do sistema ou revisões de segurança.

Além disso, a empresa sugere utilizar chats temporários e revisar permissões de integração com serviços como Gmail, Google Fotos e Chrome para reduzir o risco de exposição.

O episódio destaca a necessidade de cautela ao usar assistentes de IA, uma vez que modelos podem misturar ou reproduzir dados reais mesmo sem contexto explícito.

Com informações de Tecmundo