Pesquisadores reportaram a detecção de anéis concêntricos de grande escala na atmosfera de Vênus e, após 16 anos tentando descartar a hipótese de erro instrumental, divulgaram os resultados na revista The Planetary Science Journal em 2026.

O que foi observado e como

O sinal foi registrado pelo Extreme Polarimeter (ExPo), acoplado ao Telescópio William Herschel, nas Ilhas Canárias. Diferente de uma câmera comum, o ExPo mede apenas luz linearmente polarizada, o que reduz a contribuição da luz direta e evidencia estruturas atmosféricas sutis. A observação ocorreu em maio de 2010, durou 36 minutos e foi realizada enquanto o astrônomo Michiel Rodenhuis aguardava o escurecer para outras medições.

Nas imagens obtidas foram usados seis filtros. O padrão de anéis concentricos apareceu em três dos filtros captados nos primeiros instantes da sequência; nas três imagens subsequentes, registradas mais tarde quando Vênus estava mais baixo no horizonte e as condições de observação haviam se deteriorado, o padrão não era mais visível.

Por que a publicação demorou

Diante da impossibilidade de replicar os dados com o mesmo instrumento, os autores decidiram publicar as observações detalhando limitações e a interpretação proposta, para que outros grupos possam testar e analisar o fenômeno. Essa decisão foi explicada por Gourav Mahapatra, primeiro autor do estudo e físico atmosférico da Universidade de Delft.

O que os anéis podem representar

Se o sinal for autêntico, a explicação mais plausível apresentada pelos autores são ondas de gravidade atmosférica — perturbações que se propagam e alteram a densidade do gás. Essas ondas já foram detectadas em Vênus por missões anteriores e têm extensão potencial de milhares de quilômetros. Nas simulações, variações de densidade entre 5% e 10% acima das nuvens seriam suficientes para gerar a assinatura de polarização similar à observada, o que sugere que os anéis seriam a marca dessa variação, não as próprias ondas visíveis diretamente.

Cientistas publicam evidências de anéis concêntricos na atmosfera de Vênus após 16 anos de testes

Imagem: Divulgação

Os pesquisadores também destacam que, caso essa interpretação se confirme, as estruturas podem contribuir para o entendimento da superrotação atmosférica de Vênus — o fenômeno em que os ventos circulam o planeta em quatro dias terrestres, enquanto o corpo do planeta leva 243 dias para girar, fazendo com que a atmosfera se mova dezenas de vezes mais rápido que a superfície.

Mahapatra observou ainda que aprofundar o conhecimento sobre a atmosfera venusiana ajuda a compreender processos físicos que também atuam na Terra, apesar das diferenças de composição e condições atmosféricas entre os dois planetas.

Com informações de Olhardigital