Dois gigantes sob a Terra: poderiam ser restos do planeta que criou a Lua?

Estruturas enormes a 2.900 km de profundidade intrigam cientistas — visíveis só por terremotos e com origem que divide especialistas

A milhares de quilômetros abaixo dos continentes, pesquisadores encontram duas anomalias tão vastas que mudam a escala da geologia: blocos imensos, mais extensos que muitos países, estendem-se no limite entre manto e núcleo.

Essas massas estão a cerca de 2.900 km de profundidade. Não existem imagens diretas — a única janela são as ondas dos tremores que atravessam o planeta. A leitura dessas ondas revela regiões com comportamento sísmico e químico distinto do manto ao redor.

Dados geofísicos indicam que essas estruturas persistem há pelo menos 500 milhões de anos. A longevidade surpreende: não se trataria de algo passageiro, mas de componentes estáveis da arquitetura interna da Terra.

Dois cenários extremos: embriões planetários ou cemitérios tectônicos?

Para alguns especialistas, essas massas seriam fragmentos de um protoplaneta — um corpo primordial que, há bilhões de anos, colidiu com a Terra e ajudou a formar a Lua. Se essa hipótese estiver correta, as estruturas seriam relíquias diretas de um episódio cataclísmico que moldou o Sistema Solar.

Outra interpretação é menos dramática, porém igualmente profunda: as regiões seriam acúmulos de placas tectônicas afundadas. Ao submergirem no manto, sedimentos e crosta oceânica teriam formado “cemitérios” de material frio e denso, persistindo como marcas profundas do ciclo da litosfera.

Ambas as hipóteses carregam consequências diferentes. Se forem restos de um embrião planetário, guardariam composição química única, um arquivo da infância do Sistema Solar. Se forem placas subduzidas, documentam processos tectônicos que ocorrem ao longo de centenas de milhões de anos.

Descubra duas massas gigantescas e antigas, uma sob a África e outra sob o pacífico, repousam no fundo do manto da terra há pelo menos 500 milhões de anos, e uma das hipóteses mais fascinantes...

Imagem: Divulgação

Pesquisas recentes combinam tomografia sísmica, modelagem geodinâmica e análise geoquímica de fluxos magmáticos associados a pontos quentes. O objetivo: mapear forma, tamanho e propriedades e entender o papel dessas regiões na dinâmica do manto e na atividade vulcânica da superfície.

A presença dessas massas altera fluxos de calor no interior e pode influenciar a gênese de plumas mantélicas — as colunas quentes que alimentam vulcões longe de limites de placas. Assim, o que se passa a quase 3.000 km pode ter reflexos na geologia que vemos hoje.





O debate segue acirrado. Novos sismógrafos, campanhas de amostragem de rochas e modelos computacionais mais detalhados prometem afinar a imagem. Cada descoberta reescreve partes da história da Terra: da formação da Lua à evolução das placas tectônicas.

Enquanto a ciência avança, resta a certeza de que, sob nossos pés, existem estruturas capazes de alterar narrativas científicas centrais — testemunhas silenciosas de eventos que moldaram o planeta e que continuam, até hoje, a surpreender quem os procura.