Turismo em Cuba desaba: cidades vazias, voos cancelados e economia em alerta

Sanções, falta de combustível e apagões transformaram a ilha numa rota quase inviável para turistas — o impacto já é visível nas ruas e nos números

Havana, outrora lotada de visitantes, agora tem hotéis com quartos vazios e restaurantes que mal cobrem despesas. O fluxo que sustentava bairros históricos e negócios privados minguou em poucos meses.

Operadoras que antes recebiam milhares mensalmente hoje relatam números na casa das dezenas. Algumas mantêm equipes reduzidas apenas para evitar demissões em massa — e na esperança de uma recuperação incerta.

Autoridades oficiais registraram cerca de 298 mil chegadas internacionais no primeiro trimestre do ano, queda próxima de metade em relação ao ano anterior. Em março, tradicionalmente alta temporada, o total ficou abaixo de 36 mil visitantes.

Para comparar: em 2017 e 2018 Cuba chegou a receber cerca de 400 mil turistas por mês. Naquele momento, o setor respondia por uma fatia relevante de uma economia avaliada em aproximadamente US$ 30 bilhões.

O recuo tem várias frentes. Medidas externas reduziram o fluxo de combustíveis e apertaram canais financeiros. Internamente, apagões frequentes e problemas de infraestrutura afetam serviços básicos e a imagem do destino.

Companhias aéreas internacionais reduziram ou suspenderam rotas que ligavam Cuba a Europa e América do Norte, citando dificuldades logísticas e a impossibilidade de garantir abastecimento para os voos de retorno. Conexões passaram a depender de escalas por terceiros, elevando custos e duração das viagens.

Nas ruas, a soma de lixo acumulado, água estagnada e cortes na energia elevou o risco de surtos de doenças transmitidas por mosquitos — um fator que muitos agentes e viajantes consideram ao decidir cancelar ou adiar viagens.

Pequenos empresários do setor descrevem quedas drásticas na ocupação: hotéis boutique fecharam temporariamente, restaurantes de frutos do mar perderam fatias grandes da receita, guias locais ficaram sem trabalho.

Imagem: Getty Images

Operadores turísticos adaptaram-se como podem: alguns investiram em painéis solares para driblar apagões, outros reduziram rotas e serviços. Ainda assim, o movimento é insuficiente para recuperar a escala que sustentava cadeias inteiras de fornecedores.

Apesar da crise, há relatos de viajantes que mantiveram a ida à ilha e encontraram experiências autênticas com moradores locais. Para muitos, essa convivência direta com a realidade cubana é memorável — ainda que rara.





O futuro é incerto. A combinação de restrições externas, falhas na logística e impactos sociais deixou cicatrizes que não se reparam da noite para o dia. Para setores dependentes do turismo, a pergunta que resta é se haverá tempo e recursos para resgatar o ritmo perdido.

O que muda a partir daqui

Recuperar a confiança do visitante exigirá soluções simultâneas: estabilidade energética, garantias de transporte e uma resposta visível às condições sanitárias e urbanas. Sem isso, a retomada promete ser lenta.

Enquanto isso, empresários e trabalhadores do turismo seguem num limiar: manter portas abertas com pouca demanda ou encerrar operações para cortar custos. Cada fechamento representa perda de renda e um passo a mais na transformação da paisagem urbana.

Para quem observa de fora, Cuba passa por uma virada histórica no turismo — e o desfecho dependerá de decisões políticas, acordos internacionais e da capacidade local de estabilizar serviços essenciais. A ilha pode ser um destino resiliente, mas a reviravolta ainda parece longe.