Mais de 500 tentativas: o esforço do Exército chinês para obter chips avançados da Nvidia

Levantamento mostra compras persistentes entre 2019 e 2025 — e acende debate em Washington

Documentos públicos e registros de compras revelam que unidades militares chinesas buscaram repetidamente processadores de alto desempenho da Nvidia ao longo dos últimos seis anos. O padrão aparece em centenas de editais, apontando para tentativas sistemáticas de acessar tecnologia estrangeira mesmo após medidas de controle dos Estados Unidos.

Busca sistemática desde 2019

Uma análise de milhares de registros, conduzida pela plataforma Wirescreen, mapeou mais de 3,8 mil aquisições relacionadas a chips e sistemas de computação. Desses, mais de 500 envolviam pedidos diretos por modelos específicos da Nvidia.

Os pedidos abarcam diferentes ramos militares. Há solicitações ligadas a simulações, operações cibernéticas e centros de pesquisa com vínculos à defesa. Em vários casos, fornecedores sinalizaram disposição em vender sob termos que explicitavam uso militar.

Modelos na mira e cenários de uso

Entre os nomes mais citados nos papéis estão A100, A800, H100, H800 e versões recentes autorizadas para exportação como o H200. Registros mostram pedidos tanto antes quanto depois da imposição de controles americanos.

Em janeiro de 2024, por exemplo, uma unidade de cibersegurança sediada em Pequim solicitou servidores equipados com chips A100 para rodar ferramentas de quebra de senhas — detalhe que chamou atenção pela natureza ofensiva da aplicação.

Resposta da Nvidia: escala e contexto

A empresa afirmou que sistemas de computação de alta escala costumam envolver dezenas de milhares a centenas de milhares de chips. Na visão da companhia, os volumes identificados no levantamento estariam longe de configurar dependência exclusiva do Exército chinês.

Representantes também destacaram o avanço da indústria local e afirmaram que fabricantes chineses hoje atendem boa parte da demanda interna por componentes de processamento de ponta.

Reação política em Washington

O relatório foi apresentado ao governo e a membros do Congresso, reacendendo o debate sobre exportações de tecnologia sensível. Legisladores republicanos disseram ver nas descobertas indícios de esforços para transferir capacidade tecnológica para fins militares.

Projetos em tramitação buscam limitar ainda mais o fluxo de chips para entidades ligadas à China e dar ao Legislativo maior papel na supervisão das autorizações de venda.

Imagem: Divulgação

Como Pequim contorna os controles

Segundo a apuração, as compras foram adaptadas após a intensificação das restrições. Institutos associados às forças armadas passaram a usar canais variados: empresas de tecnologia, intermediários e até entidades civis com laços industriais.

O Instituto Jiangnan de Tecnologia da Computação, ligado à força cibernética, teve dificuldade para concluir aquisições após controles mais rígidos e precisou relistar pedidos em formatos diferentes. Ainda assim, continuou figurando como um dos maiores solicitantes.

Empurrão para alternativas domésticas

Registros também indicam que centros de pesquisa militares alugaram acesso remoto a centros de dados comerciais para utilizar chips sem necessariamente possuir o equipamento no local — uma estratégia para acessar capacidade computacional de forma indireta.

Instituições acadêmicas e laços com a defesa

Pelo menos sete universidades com histórico de colaboração com a indústria militar aparecem em pedidos por chips da série H200. Entre elas, instituições conhecidas por projetos de defesa buscaram equipamentos considerados sensíveis pelo Departamento de Comércio dos EUA.

O movimento coloca em evidência a interseção entre universidades, pesquisa e objetivos estratégicos estatais — uma área que vem sendo observada com atenção por formuladores de política externa.

O que muda daqui para frente

As descobertas ampliam a pressão por regras mais rígidas sobre vendas internacionais de tecnologia de ponta. Ao mesmo tempo, aceleram iniciativas do lado chinês para fortalecer a cadeia local de semicondutores.

Para analistas e legisladores, o dilema é claro: restringir pode frear acesso imediato, mas também estimula alternativas internas que, no médio prazo, reduzem a eficácia das sanções. O desfecho dessa equação terá impacto direto nas próximas decisões sobre exportações e nas estratégias de segurança global.