Lead: A combinação de impaciência, desânimo e isolamento cultural tem marcado o clima social desde a pandemia, aponta texto de Maria José Tonelli, doutora em psicologia social e professora titular da FGV–EAESP.
Segundo a autora, sinais desse novo humor são visíveis no cotidiano: maior irritação no trânsito, intolerância diante da demora de respostas e ausência de grandes celebrações mesmo em eventos nacionais, como os jogos recentes do time brasileiro na Copa, que não geraram mobilização de massas. A impressão é de perda de expectativas em relação ao futuro — não apenas em relação ao futebol, mas à vida em geral.
No ambiente profissional, pesquisas registram um aumento do desengajamento e a emergência do termo “resenteeism”, mistura de ressentimento e presenteísmo. A expressão descreve situações em que trabalhadores estão fisicamente presentes, porém desmotivados ou frustrados, por fatores como lideranças tóxicas, promoções adiadas e salários que não acompanham a alta do custo de vida.
Tonelli alerta que as promessas associadas ao modelo de desenvolvimento do século XX — progresso material, expansão das liberdades individuais, avanços sociais e consolidação da democracia — parecem ter perdido força. Trabalhar não assegura mais a estabilidade financeira nem a realização de objetivos como a casa própria, e a família deixou de funcionar para muitos como refúgio emocional em um contexto de enfraquecimento de valores e vínculos.
O país, observa a autora, figura entre os que mais registram casos de depressão e outros problemas de saúde mental. Mas o fenômeno é global: há menor disposição para confiar em pessoas com visões políticas ou culturais diferentes, maior consumo de mídias afins e ceticismo em relação a líderes nacionais. O Edelman Trust Barometer Global Report 2026 identifica esse quadro como “insularidade”, associando-o ao crescimento da ansiedade por motivos econômicos e ao receio de que a inteligência artificial aprofunde desigualdades entre ricos e pobres. Poucos acreditam que a próxima geração estará em condição melhor.
Referências citadas no texto apontam outros efeitos: consumo como tentativa de preencher vazios espirituais, avanço de religiões e movimentos mais extremos, polarização política e uma nostalgia por modelos autoritários ou papéis tradicionais de gênero, diagnóstico relacionado por autores como David Brooks. Paul Virilio, na Arte do Motor, é lembrado ao discutir como a velocidade reduz a capacidade de reflexão.
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Apesar do cenário crítico, Tonelli destaca aspectos que ainda preservam possibilidades de enfrentamento: 70% dos entrevistados na pesquisa Purpose at Work Study (2024/2025) da McKinsey veem o trabalho como fonte de identidade e propósito; há demanda por competências humanas como criatividade, colaboração e pensamento crítico, que podem se diferenciar da inteligência artificial; e a longevidade dos baby-boomers pode favorecer contribuições para uma sociedade mais colaborativa. “Estamos no meio do olho do furacão. Que o futuro nos reserve dias melhores”, encerra a autora.
Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.
Com informações de Valor.globo

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6