Elon Musk manterá controle substancial sobre a SpaceX após a empresa abrir capital, segundo documentos do IPO divulgados em 21 de maio de 2026. O executivo continuará acumulando os cargos de CEO, CTO e presidente do conselho e deterá mais de 50% do poder de voto, estrutura que confere autoridade para indicar diretores e decidir temas submetidos à aprovação dos acionistas.

Estrutura acionária e poder de voto

A companhia adotou um modelo de ações de classe dupla. Musk detém 93,6% das ações Classe B com direito a supervoto, papéis que não serão colocados à venda no processo de IPO. Mesmo com a oferta pública, ele seguirá com mais da metade dos votos, o que classifica a SpaceX como uma “controlled company” de acordo com as regras das bolsas americanas e permite exceções em obrigações de governança independente.

No prospecto, a SpaceX observa que acionistas detentores de ações Classe A não terão as mesmas proteções previstas para empresas que seguem integralmente as regras de governança da Nasdaq. Esse controle de voto possibilita que Musk aprove fusões, aquisições e outras decisões estratégicas sem a necessidade de obter apoio de outros investidores. O documento menciona, por exemplo, especulações sobre uma possível transação envolvendo a Tesla.

O caso contrasta com a situação na Tesla, onde Musk possui cerca de 20% do poder de voto e precisou ampliar sua participação acionária nos últimos anos. A SpaceX também transferiu sua incorporação para o Texas, estado para o qual Musk levou a Tesla após deixar Delaware.

Restrições a litígios e foro

A professora de direito Ann Lipton, da Universidade do Colorado, afirmou que a empresa está reduzindo mecanismos tradicionais que permitem aos acionistas pressionar a gestão. Entre as mudanças, ao se incorporar no Texas a SpaceX condicionou a propositura de ações derivativas à posse mínima de 3% das ações da companhia, percentual que, com uma avaliação estimada de US$ 1,75 trilhão, equivaleria a aproximadamente US$ 52 bilhões.

Os estatutos também direcionam a maior parte das disputas para a nova Corte Empresarial do Texas, em operação desde 2024, ou impõem arbitragem obrigatória. Segundo Lipton, essas cláusulas diminuem substancialmente a possibilidade de litígios contra a empresa.

Entrada rápida na Nasdaq 100

Os documentos informam ainda que a SpaceX obteve flexibilização por parte da Nasdaq para acelerar sua inclusão no índice Nasdaq 100. O processo, que normalmente levaria meses, pode ocorrer em poucas semanas, o que tende a atrair compras automáticas de grandes instituições financeiras e sustentar o preço das ações nos primeiros dias de negociação. Chan Ahn, ex-executivo do Goldman Sachs e do JPMorgan e atual CEO da Tessera, observou que a inclusão acelerada pode elevar o preço, embora investidores ainda tenham a opção de vender caso discordem da gestão.

Imagem: Divulgação

Pacote de compensação vinculado a Marte

O documento do IPO revela que Musk recebeu um pacote de remuneração composto por 1 bilhão de ações Classe B. Essas ações serão liberadas somente se a SpaceX atingir valor de mercado de US$ 7,5 trilhões e cumprir a meta de estabelecer “uma colônia humana permanente em Marte com pelo menos um milhão de habitantes”.

Apesar das condições para aquisição, o acordo prevê que Musk poderá votar com essas ações antes do término do período de aquisição e utilizá-las como garantia para empréstimos, operações que exigiriam aprovação do conselho — órgão que ele controla. O documento também indica que, se transferidas para trusts, as ações podem preservar o status de supervoto, o que abriria espaço para um possível controle dinástico da companhia.

As medidas descritas no prospecto e adotadas na estrutura corporativa mostram como a SpaceX organizou seu modelo de governança para concentrar poder decisório nas mãos de Musk após a abertura de capital.

Com informações de Olhardigital