Impacto colossal pode explicar geleiras escondidas em Mercúrio

Simulação aponta que um único choque — possivelmente o que abriu a cratera Hokusai — liberou vapor que acabou virando gelo nas sombras polares

É um paradoxo que intriga desde que os primeiros sinais foram detectados: Mercúrio, varrido pelo Sol e com temperaturas de até 430°C ao meio-dia, carrega depósitos de água nos polos. Agora, um modelo computadorizado oferece uma resposta ousada: um impacto gigante foi capaz de espalhar água suficiente para formar esses refúgios gelados.

Os autores reconstruíram um cenário extremo. Um corpo com dezenas de quilômetros de extensão, viajando a dezenas de km/s, teria escavado a cratera Hokusai — um círculo de quase 100 km — e vaporizado quantidades massivas de voláteis. Em menos de uma hora, o vapor liberado teria envolvido Mercúrio, criando uma camada atmosférica temporária e densa o suficiente para proteger parte da água da destruição imediata pela radiação solar.

Sem essa proteção efêmera, quase toda a água seria dissipada pela fotólise. Com a atmosfera de curta duração, a perda caiu dramaticamente e uma fração significativa do total acabou migrando e sendo aprisionada nas regiões permanentemente sombreadas dos polos. O modelo estima que cerca de 22,4% da massa liberada ficou retida — algo na ordem de 2,3×10¹³ kg — número compatível com o limite inferior do que telescópios e radares já detectaram.

O que bate e o que ainda não fecha

Os movimentos do vapor também surpreenderam. Em um único dia mercuriano, o material migrou com eficiência para ambos os polos, distribuindo-se de forma mais uniforme do que se imaginava. A fotólise mais lenta em determinadas condições permitiu que água do hemisfério exposto alcançasse armadilhas frias do outro lado do planeta.

Mesmo assim, há lacunas. A simulação gerou camadas de gelo com espessura máxima de cerca de 37 cm — bem abaixo dos vários metros sugeridos por observações de radar. Para reconciliar esses números, o impacto teria de ser diferente: maior, mais lento ou ocorrido sob ângulos pouco usuais, segundo os próprios pesquisadores.

Imagem: Divulgação

O trabalho também adotou simplificações. Foi modelada apenas a água, sem incluir outros voláteis nem processos subsequentes como o soterramento por micrometeoritos, que pode enterrar ou redistribuir gelo ao longo de milhões de anos. Ajustes em parâmetros como tamanho, velocidade e ângulo do impactor ainda são necessários para refinar o quadro.

Futuras medições da missão BepiColombo, já em órbita de Mercúrio, serão essenciais para testar essas previsões — em especial a espessura e a composição dos depósitos polares. Se confirmada, a hipótese transforma o entendimento sobre como mundos perto do Sol podem preservar voláteis: não por gradual acúmulo, mas por um único evento violento que deixou resfriar o suficiente para que o gelo resistisse por eras.