Vestígios observados em esqueletos de princesas do Egito Antigo apontam que mulheres da família real realizavam atividades físicas intensas, como uso de arco e flecha e caça, segundo pesquisa publicada na quinta-feira (16) na revista Frontiers in Environmental Archaeology. Os achados desafiam a visão de que as armas depositadas em túmulos teriam apenas significado simbólico.

Reavaliação de múmias de Dahshur

Pesquisadores reanalisaram seis múmias reais provenientes do complexo funerário de Dahshur, onde foram sepultados membros da realeza há aproximadamente quatro mil anos. Os restos, descobertos no fim do século XIX e considerados perdidos por décadas, foram localizados durante um projeto de curadoria no Museu Egípcio em 2020.

Entre os indivíduos avaliados estão quatro irmãs identificadas como filhas do faraó Amenemhat II, além da princesa Noub-Hotep e do rei Hor. Os cientistas examinaram marcas em ossos, sinais de lesões antigas e os objetos funerários associados a cada enterro.

Os arqueólogos observaram inserções musculares muito desenvolvidas nos membros superiores, compatíveis com esforços repetitivos de alta intensidade — movimentos coerentes com a tração de cordas de arco ou a estabilização de armas. Itens normalmente ligados a homens, como arcos, flechas, maças e uma adaga encontrada no sarcófago da princesa Ita, acompanharam os enterros, e a equipe interpreta essa associação como reflexo de práticas vividas, não apenas de status.

Além das adaptações ósseas, foram documentadas fraturas consolidadas e outras lesões. A princesa Itaweret apresentou cicatrizes de fraturas nas costelas e em ossos do pé, sinalizando exposição a quedas, impactos ou acidentes relacionados à atividade física. Encontraram-se também indícios de infecções, deficiências nutricionais e uma alteração incomum na coluna vertebral presente nas quatro irmãs, que os autores sugerem poder resultar de elevado grau de consanguinidade entre os progenitores.

Imagem: Divulgação

Os pesquisadores destacam que a consolidação satisfatória das fraturas indica que os membros da realeza tinham acesso a tratamentos médicos relativamente avançados para a época. A principal autora do estudo, Zeinab Hashesh, afirma que as características esqueléticas reforçam a ligação entre os objetos funerários e a rotina dessas mulheres, apontando participação ativa em atividades fisicamente especializadas.

Os autores reconhecem limitações provocadas pela ausência dos crânios das princesas, desaparecidos no início do século XX, e pela não realização ainda de exames planejados, como análises de isótopos estáveis, que podem esclarecer dieta e condições de vida. A equipe pretende aprofundar investigações sobre laços familiares, estado de saúde e possíveis funções políticas, além de preservar os remanescentes, produzir réplicas tridimensionais para educação e reunir os esqueletos com os objetos de seus túmulos em futuras exposições, respeitando o contexto funerário original.

Com informações de Olhardigital