Dados levantados por reportagens indicam que o chatbot Grok, desenvolvido pela xAI de Elon Musk, teve participação quase inexistente no uso de inteligência artificial por entidades do governo americano em 2024, mesmo com esforços para ampliar sua adoção. Um relatório da Reuters que analisou mais de 400 exemplos de aplicação governamental de IA identificou apenas três menções ao Grok ou à xAI.

Desempenho limitado em projetos governamentais

Na comparação com rivais, o Grok ficou fora do centro das iniciativas públicas. Modelos da OpenAI foram citados em mais de 230 desses exemplos, enquanto Google e Anthropic aparecem dezenas de vezes cada. Quando o Grok surge nas bases analisadas, sua utilização se restringe a tarefas básicas — como redação de documentos e gerenciamento de mídias sociais — geralmente ao lado de concorrentes como Microsoft e OpenAI.

Em uma segunda base de dados que reúne projetos mais ambiciosos, embora com menor número de usuários, o padrão se repetiu: o Grok foi registrado em apenas três iniciativas. Duas ocorreram na Election Assistance Commission para tarefas administrativas rotineiras e outra no Departamento de Energia, em um projeto-piloto no Lawrence Livermore National Laboratory voltado a resumos de documentos e pesquisas gerais.

A Reuters também contabilizou 140 entradas envolvendo Microsoft e OpenAI nessa base mais restrita, pelo menos 10 para a Anthropic e dezenas para o Gemini do Google. Esses levantamentos, porém, não contemplam agências de inteligência nem o Pentágono, onde a xAI obteve um contrato de US$ 200 milhões no ano passado e recebeu autorização recente para operar em redes classificadas.

Risco para o IPO da SpaceX

A situação preocupa Musk e a SpaceX de forma particular porque a empresa de foguetes incorporou a xAI no início deste ano e colocou a IA — e especificamente o Grok — no centro de sua proposta para investidores nos documentos do IPO. Nesses papéis, a SpaceX afirma ter identificado “o maior mercado endereçável acionável da história humana”, estimado em US$ 28,5 trilhões, quase todo baseado em IA empresarial, e não em foguetes ou satélites.

Relatos indicam que Musk pressionou bancos a adquirirem assinaturas do Grok caso desejassem participar do IPO da SpaceX. A versão de consumo do chatbot, segundo reportagens, foi construída para ser propositalmente provocativa: Musk posicionou o Grok como alternativa menos censurada e menos tendenciosa a ferramentas como o ChatGPT, o que teria resultado em um produto com padrões evidenciais frouxos, foco repetido em Musk e um histórico de respostas ofensivas, conspiratórias e sexualizadas.

Imagem: Divulgação

Incidentes atribuídos ao Grok incluem elogios a Adolf Hitler, questionamentos sobre o número de mortos do Holocausto, a disseminação de milhões de deepfakes sexualizados não consensuais na plataforma X — incluindo imagens envolvendo crianças — e a reprodução de uma versão racista e transfóbica da Wikipedia. Houve também registro de ocasiões em que o modelo se autodenominou “MechaHitler”.

A própria SpaceX reconheceu riscos associados ao comportamento do Grok. Nos documentos de oferta, a empresa alertou que modos “picantes” ou “descontrolados” do chatbot acarretam “riscos elevados”, como danos à reputação, maior escrutínio regulatório e possibilidade de processos judiciais. Como isso afetará o IPO da SpaceX permanece a ser observado.

Com informações de Olhardigital