Conflitos no Golfo Pérsico estão provocando uma nova onda de perturbações nas cadeias de suprimentos mundiais, com impactos que vão além do setor de energia e já pressionam preços e logística em diversas regiões do planeta.

Em Toronto (Canadá), o empresário Amar Zaidi, 52, da Rebus International, enfrentou nos últimos dias a elevação abrupta do custo de transporte de um contêiner com tecido produzido em Istambul (Turquia) com destino a Xangai (China). A rota usual, que passa por Omã e pelo Canal de Suez, tornou-se perigosa e as transportadoras passaram a cobrar sobretaxas que fizeram o valor do frete saltar de cerca de US$ 2.000 para US$ 10.000.

Zaidi, fornecedor de matérias‑primas para marcas como Calvin Klein e Hugo Boss, resumiu o momento: “É um caos” e “É o efeito dominó. Tudo é atribuído à guerra.”

Energia no centro da crise e risco de estagflação

A turbulência imediata atinge petróleo e gás natural, após ataques a navios e o fechamento de instalações na região, e levou a Agência Internacional de Energia a afirmar que ocorreu “a maior interrupção de oferta da história do mercado global de petróleo”. Mesmo com a liberação coordenada de reservas por 30 países, o preço do barril voltou a superar os US$ 100, gerando alertas sobre risco de estagflação — combinação de crescimento fraco e inflação elevada.

O encarecimento de combustíveis eleva custos de caminhões, navios e aviões e diminui a renda disponível das famílias, com efeito direto sobre consumo e atividade econômica. “Criamos um nível de incerteza igual ou maior do que durante a pandemia”, disse Nick Vyas, especialista em cadeias de suprimentos da Marshall School of Business da Universidade do Sul da Califórnia. “É a tempestade perfeita para a estagflação.”

Impacto amplo em indústria e alimentos

Além da energia, a desordem no tráfego marítimo afeta commodities industriais e produtos agrícolas. Produtores de camarão e frutas tropicais no Sudeste Asiático enfrentam dificuldades para escoar mercadorias para Europa e América do Norte. Preços de fertilizantes, como a ureia — principal forma de nitrogênio — já subiram devido à queda da produção vinculada ao gás natural, e isso pode levar agricultores a reduzir aplicação, com queda de safra e alta dos preços dos alimentos em países vulneráveis da África Subsaariana e do Sul da Ásia.

Também há implicações em metais e insumos: o alumínio registra alta por obstáculos no envio a partir do Catar e do Bahrein, e o hélio, essencial para a fabricação de chips, pode se tornar escasso.

“Não se trata apenas de petróleo”, observou Vyas ao destacar os efeitos industriais.

Imagem: Divulgação

Logística e rotas aéreas

Grandes aeroportos do Golfo, como Dubai e Doha, deixaram de atender normalmente às operações de reabastecimento e pouso em voos entre Europa e Ásia. Aeronaves foram redirecionadas por rotas mais longas, muitas vezes via Ásia Central, aumentando consumo de combustível e forçando redução da capacidade de carga.

No transporte marítimo, apesar de preços de contêineres estarem relativamente baixos em função do excesso de navios recém‑encomendados, as transportadoras já vêm incorporando expectativa de custo de combustível mais alto e cobrando sobretaxas por rotas afetadas. Ryan Petersen, CEO da Flexport, resumiu a sequência de dificuldades: “É realmente uma coisa atrás da outra neste setor.”

Globalização em debate

O episódio reacende o debate sobre a resiliência versus a eficiência das cadeias globais. Movimentos para regionalizar produção, como parte do estoque de medidas tomadas por grandes varejistas — por exemplo, transferências de produção da Ásia para o México — tiveram efeitos temporários. Segundo estudo mencionado por Steven A. Altman, da Stern School of Business da NYU, a participação das importações americanas vindas do México e do Canadá subiu de 26% em 2020 para 29% em 2023, mas nos primeiros nove meses de 2025 recuou a 27% enquanto empresas voltaram a buscar fornecedores de menor custo onde quer que estejam.

As incertezas sobre tarifas dos Estados Unidos, após decisão da Suprema Corte que considerou que o presidente Donald Trump ultrapassou sua autoridade, somam‑se aos riscos. Analistas apontam que, quanto mais prolongadas as hostilidades, maior será a desorganização para consumidores e empresas em escala global.

O conjunto de impactos evidencia que, embora previsões periódicas anunciem o fim da globalização, integração econômica internacional segue ativa e vulnerável a choques que reverberam por várias cadeias produtivas.

Com informações de Infomoney