Uma decisão da 15ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo determinou a restituição a Milton Nascimento dos direitos patrimoniais sobre a canção “Travessia”, originalmente cedidos à Editora Musical Arlequim em 1967. O juiz Mauro Civolani Forlin rescindiu o contrato de edição musical firmado naquele ano e reconheceu a titularidade da obra em favor do cantor, de Isabel Ferreira Brant e das editoras que hoje os representam. A decisão é de primeiro grau e ainda pode ser objeto de recurso.

A ação foi proposta em fevereiro de 2025 por Milton Nascimento, Isabel Ferreira Brant e pelas editoras que defendem os direitos dos autores. No processo, os autores pediam o término do vínculo com a Arlequim, o reconhecimento formal da propriedade sobre “Travessia” e a reparação por perdas e danos. O magistrado acolheu o pedido principal e proibiu a editora de praticar qualquer ato relativo aos direitos patrimoniais da canção, entre eles autorizar usos por terceiros e receber valores decorrentes da exploração econômica da obra.

O descumprimento da ordem judicial prevê multa fixada em R$ 5 mil por ato. A quantificação da indenização referente a valores que eventualmente não foram repassados aos autores ao longo do contrato ficará para uma fase de liquidação da sentença posterior à decisão que rescindiu o acordo.

O resultado favorável ocorre em um momento delicado da vida do artista. Milton Nascimento, que completou 83 anos em outubro do ano passado, recebeu alta hospitalar recentemente após internação para tratamento de pneumonia, segundo informação divulgada pelo filho Augusto Nascimento. A família tornou público em 2025 que o cantor convive com doença de Parkinson e com demência por corpos de Lewy.

Sobre a faixa

Travessia” foi composta por Milton Nascimento em parceria com o letrista Fernando Brant, que faleceu em 2015. A canção surgiu em 1967, quando Agostinho dos Santos inscreveu, sem o conhecimento de Milton, três músicas suas no 2º Festival Internacional da Canção; “Travessia” classificou-se em segundo lugar e impulsionou a carreira nacional e internacional do compositor.

A letra de Brant aborda a frustração de um amor não correspondido e, segundo interpretações ao longo do tempo, traz também sentidos ligados à resistência diante do contexto político da época. O título remete à palavra final do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, leitura estimada por Brant naquele período.

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Ao longo das décadas, “Travessia” foi regravada por artistas como Elis Regina, Jair Rodrigues e Sarah Vaughan. Milton incluiu uma versão em inglês, “Bridges”, em seu segundo álbum solo, e a música chegou a ser gravada por Björk em português. A canção é apontada como o ponto de partida para o movimento conhecido como Clube da Esquina, que reuniu nomes como Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes e Wagner Tiso, entre outros, e mesclou elementos de bossa nova, jazz, rock e música folclórica.





Não há, na decisão de primeiro grau, definição final sobre eventuais valores a serem pagos aos autores; essa apuração será feita em fase posterior do processo.

Com informações de Rollingstone