Pesquisadores relataram a reversão de déficits de memória associados ao Alzheimer em testes realizados com roedores, ao restaurar o equilíbrio energético no cérebro dos animais. O achado sugere que parte dos danos cerebrais provocados pela doença pode ser recuperada, em contraste com a visão tradicional de progressão irreversível.

Os experimentos envolveram duas linhagens de roedores geneticamente modificados para desenvolver alterações semelhantes às observadas em pacientes humanos com Alzheimer. Mesmo quando os sinais cognitivos já estavam avançados, o desempenho dos animais voltou a níveis considerados normais após a intervenção.

A pesquisa foi liderada por Andrew A. Pieper, médico e cientista do University Hospitals (UH). Ao comparar amostras cerebrais humanas e animais, a equipe identificou uma crise energética nas células do cérebro como um problema central da doença: cérebros afetados perdem a capacidade de manter estáveis as reações químicas responsáveis pela produção de energia celular.

Esse desequilíbrio energético foi observado tanto nas fases iniciais quanto nas avançadas do Alzheimer. Quando a oferta de energia foi restabelecida nos animais, surgiram sinais de regeneração do tecido cerebral.

Molécula-chave e composto experimental

Os resultados apontam para a molécula NAD+ como elemento essencial ao funcionamento celular. A substância participa de reações que permitem a conversão de nutrientes em energia pelos neurônios, além de contribuir para a síntese proteica e a reparação do DNA. Com o envelhecimento, os níveis de NAD+ diminuem naturalmente; o estudo encontrou queda ainda mais acentuada em cérebros com Alzheimer.

Quando o NAD+ fica muito baixo, as células acumulam danos, o que pode desencadear neuroinflamação e prejudicar conexões neuronais, afetando a memória. Nos testes de laboratório, a restauração do equilíbrio energético reduziu danos ao DNA e outros sinais de desgaste químico.

Para promover essa restauração, os pesquisadores usaram o composto experimental P7C3-A20, projetado para proteger células nervosas em situação de estresse. Em vez de aumentar diretamente a quantidade de NAD+, o medicamento ajuda as células a manter a molécula em níveis estáveis mesmo sob condições adversas. O tratamento foi administrado diariamente após o surgimento dos sintomas e, segundo a equipe, reverteu vários tipos de danos cerebrais associados ao Alzheimer nas duas linhagens avaliadas.

Imagem: Divulgação

Após a terapia, os animais apresentaram comportamento semelhante ao de controles saudáveis e redução significativa dos marcadores de dano cerebral. Observou-se também recuperação da barreira hematoencefálica, com menos vazamentos nos vasos sanguíneos cerebrais e células de suporte mais saudáveis ao redor dessas estruturas, o que pode favorecer a remoção de toxinas e o funcionamento dos circuitos de memória.

Os pesquisadores compararam padrões de expressão proteica entre humanos e animais e identificaram dezenas de proteínas alteradas em ambas as espécies. Nos camundongos tratados, o medicamento normalizou 46 dessas proteínas.

Apesar dos resultados promissores em modelos animais, os autores alertam que o sucesso no laboratório não garante eficácia em humanos. Ensaios clínicos controlados são necessários para verificar se os benefícios observados nos modelos animais se repetem em pessoas. Os cientistas também aconselham contra tentativas caseiras de aumentar o NAD+: estudos anteriores com nicotinamida ribosídeo, um composto presente em suplementos, mostraram aumento da disseminação de câncer ao cérebro em testes com ratos.

O estudo reforça a hipótese de que estratégias terapêuticas futuras podem não só retardar a degeneração, mas também estimular processos de reparo no cérebro, caso sejam confirmadas em testes clínicos.

Com informações de Olhardigital