Pesquisadores confirmaram que exposições a calor intenso podem provocar mudanças hereditárias em moscas-das-frutas, com sinais do estresse térmico persistindo por até três gerações. O achado, registrado em estudo publicado pela Oxford Academic, indica que o impacto do calor sobre a biologia desses insetos não se limita aos indivíduos diretamente atingidos.

Como ocorre a herança do efeito do calor

Segundo o trabalho, o fenômeno resulta de modificações epigenéticas — alterações que não mudam a sequência do DNA, mas influenciam a forma como os genes são ativados. Em adultos submetidos a ondas de calor severas, proteínas e marcadores químicos de proteção celular entram em ação e essas marcas acabam sendo incorporadas às células germinativas.

Essa marcação molecular permite que descendentes não expostos ao estresse térmico já apresentem respostas adaptativas preparadas para temperaturas elevadas, o que os autores descrevem como uma “memória” do estresse transmitida entre gerações.

Principais resultados observados

Os experimentos foram conduzidos com a espécie Drosophila melanogaster, amplamente usada como modelo genético. Entre as observações, os cientistas registraram:

– redução significativa na taxa de eclosão de ovos em ambientes aquecidos;
– ativação de genes de choque térmico em descendentes que não receberam nova exposição ao calor;
– alterações no metabolismo lipídico apontadas como mecanismo de conservação de energia;
– manutenção de características fenotípicas associadas ao estresse por até três ciclos de vida.

O estudo também quantificou impactos na reprodução e no ciclo de vida: a fertilidade foi reduzida em cerca de 40% após o estresse térmico e houve indícios de ciclo de vida encurtado, com expressão gênica hiperativa ligada à proteção celular.

Imagem: Divulgação

Efeitos práticos na terceira geração

Na terceira geração das linhas avaliadas, os indivíduos mostraram tolerância térmica acima da média histórica para a espécie mesmo sem exposição direta ao calor. Entretanto, essa resistência apresentou custo energético: as moscas eram menores e tinham menor capacidade de dispersão no ambiente.

Os autores alertam para possíveis desdobramentos ecológicos: embora a plasticidade biológica permita respostas rápidas ao aumento de temperatura, efeitos colaterais — como redução da fertilidade, comprometimento de outras funções vitais e acumulação de marcas epigenéticas — podem tornar populações mais frágeis.

Os pesquisadores destacam a necessidade de investigar se mecanismos semelhantes ocorrem em animais de maior porte e, eventualmente, em humanos, enquanto a ciência busca mapear a extensão e as consequências dessa herança térmica.

Com informações de Olhardigital